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Triste alma cabocla, perdida por entre os fantasmas dos pinheirais, solitária a tatear a procura da solidez do ombro confiável, da mão afável, o olhar penetrante que rasga todos os véus da mentira e encontra o íntimo humano onde se confia a palavra inaudita de nossos mais obscuros mistérios. Triste é a face soturna do homem moderno que vagueia pela floresta de concreto, ferro e vidro, a procura de um reflexo amigável que não seja a sua face envolta de ares plúmbeos em uma vidraça qualquer a luzir unicamente um par de meninas amendoadas, safadas e cínicas a habitar nossos solitários olhos. Eis o homem moderno. Perdido, sem porto seguro, apavorado pela sua incerta rota que o leva a um porvir Kafkiano, por entre correntes marítimas que anunciam tudo falar sobre a desventura humana e nada dizem sobre nós, fingindo nos explicar, confundido-nos ad infinitum o que até então era tão simples. Pobre de nós, carcomidos pela nossa vaidade, pelo nosso desejo de transformar a tudo ao nosso bel-prazer que ao mesmo tempo é tolhido pela vontade ignara de uma multidão sem face, sem alma e de destino certo. E carcomidos ficamos pela famulenta mandíbula dela, ávida por devorar nossa alma desesperada, entregue a uma volúpia nietzschiana, pavorosa, por não compreender o fruto estéril que nasceu do sulco cevado por nossas mãos. Ou então, devorados pela cansada mandíbula de nós, que na solidão de uma alcova sórdida, professa-se injúrias a Adonay e a sua obra, obra a qual está corroída pelas nossas boas intenções fervilhadas por palavras malditas. Esse é o ser humano moderno, montado em sua virulenta moral depravada que arroga para si os mais elevados altares, vestindo-se de indumentária aveludada e de um falso olhar cientificista, como mentes riscadas e sujas a eclipsar questões antes tão claras, deixando-se entregar a um obscurantismo singular perdido em um pluralismo de enganos labirínticos. Eis aí a face lavada e escarrada do homem moderno! Desesperado e perdido. Mas, feliz daquele que, como eu, que tem uma semente de esperança semeada com amor e cultivada com zelo e carinho, que chamamos de filho que com sua face e sorrisos miúdos, com alegria e inocência nos mostram que esse turbilhão pavoroso não passa de uma brisa da vaidade nossa e que há mais entre a rústica face de Gaya e a abóboda celeste de Zeus do que nossos pretensos sofismas fantasiados de Sofia. Viva aos pequenos, pois é neles que a pureza da verdade habita e um dia se fará revelar em nós.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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