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Crônicas
22/10/2007 - 07h52
Sobre como não ser um animal
André Falavigna
 

Este é um tema que me é cada vez mais caro. Tenho reparado que, nesses nossos dias de hoje, o comportamento animalesco tem ganhado mais e mais adeptos. E sim, estou utilizando a palavra animal no sentido pejorativo mesmo. Não me venham com aquela de que isso não se faz porque os seres humanos são piores do que os animais porque os animais são purinhos e sinceros e agem de acordo com a natureza e patati, e patatá. São melhores é o cacete. Não estou com muita paciência hoje, portanto não vou nem me estender com essa criancice. Só por piedade, farei um pequeno aparte e, depois, voltarei à coisa propriamente dita.

Quando chamamos pessoas de animais o fazemos porque elas estão agindo como animais justamente naquelas situações em que o que se esperava delas é que lançassem mão de suas características humanas, aquelas que os animais não possuem. Por exemplo: animais são incapazes de compreender o que está escrito aí atrás porque não sabem ler, escrever, essa tralha toda. Portanto, se você ainda não entendeu o que foi dito até aqui, é provável que já possa abandonar a leitura deste texto, agora mesmo. Vai! Chispa! Pra casinha!

Voltemos à coisa. Com quem sobrou, pelo menos.

Vamos lá. Lixo no chão. O camarada vai lá, compra qualquer coisa de comer, beber ou fumar ou, ainda, de se limpar depois de qualquer desses atos. Essas coisas vêm acondicionadas em embalagens ou são, elas mesmas, descartáveis. Ele consome o produto e atira o troço que o envolvia na rua. Limpa a boquinha e as mãozinhas e atira o guardanapo, sujo, na rua. Milhões fazem a mesma coisa. A rua fica tomada de imundícies. Há cestos e mais cestos e mais cestos, separados por poucos metros, que poderiam receber essa porcaria toda. Não recebem porque a) foram depredados; b) estão quase emborcados de tanto lixo e não suportam nem mais um tubinho de Yakult (adoro Yakult); c) o consumidor do alimento, da bebida, do fumo ou do guardanapo está cagando para essa porra inteira e atira a merda toda no chão porque quer mais é que tudo se foda.

Uma dica, e para retomar o título da crônica: para não ser confundido com um animal, não faça isso.

Também não esguiche a calçada. Água é um troço caro e difícil de arrumar. Se você a desperdiça, os outros ficam sem, mesmo que você possa pagar pela que desperdiçou. Isso porque não se a recupera assim, como nas aulas de Ciência do ginásio, em que toda a água evaporava para, depois, ser devolvida sob a forma de chuva. Quem lhe fornece a água precisa que chova para poder fornecer-lhe mais. Às vezes, não chove, e a água que você desperdiçou demora em voltar. Existe um equipamento perfeito para limpar a calçada. Chama-se vassoura.

Carro também não precisa de ducha. Existem casas especializadas em lavar carros que, em diversos casos, possuem meios de aproveitar melhor a água. Lave o seu numa delas. Ponha a mão no bolso, safado. Ou na massa, lavando o carro com pano, flanela, balde, essas relíquias arqueológicas. O que não pode é meter-nos a todos nessas merdas de racionamento.

Já reparei que quem lava o carro com esguicho sempre atira o lixo pela janela do carro, na rua. Não pode ser coincidência.

Normalmente, são os mesmos tipos que acreditam que todo mundo quer ouvir a mesma música que eles. Daí, eles estacionam o carro que acabaram de esguichar (provavelmente, na calçada) logo ao lado de onde a gente está conversando e ligam o som bem alto, bem alto mesmo, de modo que qualquer conversa fica impossível. Ato contínuo, passam a berrar coisas quase ininteligíveis e meio que desconexas entre si e, depois, vão embora deixando um montão de lixo espalhado no chão. Se forem ricos, terão nos obrigado a ouvir qualquer monstruosidade que se impregnará em nossas mentes pelo resto do dia. Se forem pobres, também. Só terá mudado a marca do lixo. Os pobres deixarão várias latinhas de Nova Schin, Krill e Kaiser, e os ricos de Skoll, Brahma e Miller. Em ambos os casos, é provável que depredem os cestos de lixo que encontrarem pelo caminho (haverá muitos e muitos e muitos, separados por poucos metros). Está aí algo cuja distribuição, neste país, não comporta injustiça: nossa animalidade desconhece classe social.

Orelhões não foram criados para formar fila. São colocados ali, na calçada, para que os cidadãos possam receber e realizar chamadas telefônicas, normalmente com certa brevidade e, excepcionalmente, para contatos mais longos. É para isso que eles servem. Não são de enfiar no cu. Digo isso porque a impressão que a gente tem, pelo estado em que se encontra a imensa maioria desses aparelhos, é que eles foram todos utilizados para satisfazer as mais sodômicas e brutais necessidades dos mais fedorentos ogros conhecidos pela ficção universal. Isso mesmo. A única coisa que, em São Paulo por exemplo, anda em piores condições do que os cestos de lixo são os orelhões. Os animais (aqueles, metafóricos) os emporcalham tanto que, sem pecar contra essa pitoresca tradição de associação anatômica, poder-se-ia apelidá-los carinhosamente de cuzões. Os cuzões da Telefônica. Essa terminologia seria útil até por motivo de economia vernacular, desde que cuidássemos de atentar às questões contextuais. Ora "Cuzões da Telefônica" poderia designar esses simpáticos, imundos e invariavelmente quebrados aparelhos, ora poderia designar o pessoal do atendimento da notabilíssima companhia que os instala e mantêm.

Os banheiros coletivos, públicos e privados, esses sim são lugares onde você pode, sem correr risco de ser chamado de animal, dar vazão a todo tipo de porcaria que desejar. É com essa finalidade que se fixam, no chão e mesmo nas paredes, aqueles vasos sanitários todos, aquele monte de mictórios. É para o sujeito fazer coco e xixi (não vá cagar nos mictórios, nunca é demais avisar), para dar aquela bonita escarrada ou ainda despejar o produto de uma insólita punhetinha, tudo dentro deles. Não em volta, nem na tampa, nem nos registros ou nos botões de acionamento. Estes últimos, aliás, estão lá para serem premidos. As cordinhas se prestam a puxões. Tudo isso depois que você pôs o melhor de si para fora, catarticamente. É, é incrível mesmo, mas em verdade vos digo, bando de filhas da puta sem educação: as descargas dos banheiros coletivos são feitas para se usar, não para se mijar em cima delas. Espantoso, hein?

É mesmo assustador que gente tão disposta a desperdiçar água para lavar um carro de merda se ponha a economizá-la justo na hora em que isso nos custa cafungar as mais variadas combinações de fezes, urina, sêmen, catarro e sabe lá Deus mais o quê, tudo proveniente de desconhecidos cujo principal lazer, na certa, consiste em depredar orelhões e cestos de lixo. Os orelhões eu até entendo, porque diante do volume em que essa raça ouve aquelas músicas horrorosas, era de se esperar que estejam todos mais ou menos surdos a ponto confundirem o som de uma descarga repleta de urina ao de um chamado telefônico ou, por último mas não somente, ao de uma sinfonia. Como só ouvem merda, essa história toda acaba simbolicamente muito bem arranjada.

Como vocês puderam perceber, estou de excelente humor. Poderia citar mais dúzias e dúzias, verdadeiras grosas de exemplos que ilustrariam essa forte tendência ao animalesco que temos desenvolvido assim, como se fosse um direito natural, uma virtude revolucionária. Poderia dizer que os assentos dos ônibus são para sentarmos, não para imortalizarmos eventuais aventuras reto adentro da torcida uniformizada adversária, nem para informarmos em que zona da cidade achamos mais gostoso proceder a tal delícia proctológica. Ninguém quer saber que "Marcinho Independente ZS come cu de Gavião", coisa na qual, aliás, ninguém acredita. O que as pessoas querem é ter um assento limpo na segunda-feira, quando estão indo trabalhar.

Eu poderia isso e muito mais, mas vou parar por aqui. Vou reservar este pequenino espaço que me resta para pedir desculpas aos meus pouquíssimos e eventuais leitores que, tenho certeza, não fazem nenhuma dessas coisas feias que citei, inclusive porque não são uns animais. São ótimas pessoas, asseadas, uma beleza. Para falar a verdade, todo mundo com quem falo garante-me que é muito gente, muito ser humano, essa veadagem toda. Não tenho a menor dúvida de que estão todos falando a verdade e de que, tão logo esta crônica seja publicada, os poucos animais recalcitrantes porão a mão na consciência e passarão a agir dentro da mais estrita civilidade. Quem viver, verá. Vai ser uma coisa louca.


Nota do Editor: André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal, ofalavigna.blog.uol.com.br, no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance. Colabora com diversas publicações eletrônicas.

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