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Opinião
16/08/2004 - 20h12
A ilusão esportiva
Roberto C. P. Júnior
 

Onde quer que o ser humano deponha o intelecto à frente do espírito, o raciocínio por cima da intuição, lá surgem focos de doenças, porque outra coisa não pode brotar de uma sementeira má. Ao invés de atuar como espírito humano dentro da matéria, enobrecendo tudo ao seu redor, como é sua missão, ele age como criatura terrena exclusivamente, como se nada de espiritual tivesse dentro de si.

Desse modo, tudo o que é originalmente bom, útil e bonito, após escorrer por seus dedos racionalistas torna-se mau, nocivo e feio. Esse processo aparece com muita nitidez na arte, seja pintura, escultura ou música. Tudo o que de extraordinariamente belo a arte nos legou em séculos passados, transmudou-se num amontoado de lixo informe, cinzelado ao longo do século XX e também no atual, quando o raciocínio frio atingiu seu apogeu e tudo sobrepujou em sua ânsia de salientar-se com qualidades que não possui. O raciocínio fez do coração do homem seu escabelo, e do espírito vivo seu escravo. E com isso reduziu a aterro sanitário quase toda a arte, outrora magnífica. As formas adquiridas pela pintura e música contemporâneas, geradas apenas por neurônios, prescindem de qualificativos. Não porque existam muitos a escolher, mas porque não se descobre nenhum que lhes faça a devida justiça. Como essas "coisas" estão sempre muito abaixo do alcance dos dicionários mais recentes e perspicazes, é impossível encontrar adjetivos adequados para qualificar razoavelmente um tal horror.

Contando apenas com o archote bruxuleante do intelecto a iluminar as picadas trevosas que abriu na materialidade, para desbravá-la a seu modo, o ser humano hodierno torceu até a lei básica do movimento na Criação, a qual estabelece que algo só pode ser conservado íntegro e sadio se mantido em contínua movimentação. Aplicada corretamente ao corpo físico, essa lei cuidaria de mantê-lo sempre são e vigoroso. Mas o raciocínio transformou a salutar movimentação física em... esporte. E, com isso, o que era sadio tornou-se mórbido mais uma vez.

A arte do esporte! Louvada e elevada em toda parte, sempre e sempre, mais e mais. Exaltada com esperança no mundo todo, decantada com orgulho entre os povos, divinizada com olímpica emoção pelas nações! Como poderia ser danosa?... Para quem tem olhos para ver, o enaltecimento esportivo atual é apenas mais uma amostra aterradora de como os conceitos de certo e errado estão completamente torcidos em nossa época. De como o enrijecimento espiritual já envolveu quase toda a humanidade, extinguindo suas aspirações mais nobres e comprimindo seu campo de visão em limites cada vez mais estreitos.

O esporte é, sim, danoso, porque se fundamenta na competição. Não visa em primeira linha angariar e conservar a saúde do corpo, senão mostrar quem é o "melhor" numa determinada modalidade. "O importante não é ganhar, e sim competir!", rebaterão prontamente injuriados discípulos de Coubertin, arautos do esporte enobrecido. Mas não, de jeito nenhum. Para qualquer esportista desse planeta o importante é, sim, ganhar. Sempre. E mesmo se algum deles realmente acreditasse nessa utopia, lá no fundo do seu coração, e não apenas a murmurasse para si próprio entre soluços e olhos marejados ao perder o primeiro lugar, então seria igualmente insano.

Competir... Para quê? Para um dia ter a honra de escalar o pódio e divisar com orgulho a bandeira do seu país tremulando acima das demais? Para se emocionar ao ver todos os "inimigos" calados ali em volta, forçados a escutar cabisbaixos o hino de seu país, obrigados a reconhecer o triunfo de sua nação? Para poder ser ovacionado num carro de bombeiros e verter lágrimas de herói? Isso é patriotismo?... É para isso que jovens desperdiçam os melhores anos de suas vidas em treinamentos? É para isso que se submetem a cirurgias recorrentes para reparar músculos e tendões lesionados? É para essa finalidade que se desenvolvem vestimentas especiais e potentes anabolizantes? É para esse ideal que técnicos famosos, com suas estratégias de guerra, são contratados a peso de ouro? Doping então é tática de espionagem? Luxações e distensões são condecorações por combate, medalhas marcantes por bravura em ação?...

Como é patético ver senhores grisalhos, engravatados, discutir mui seriamente aspectos futebolísticos num programa de debates, profundamente compenetrados em analisar lances e emitir diagnósticos e prognósticos. Coisa mais degradante. Até hilariante seria, não fosse tão ridículo. Incrivelmente ridículo. Que proveito verdadeiro pode trazer a um povo a conquista de uma copa do mundo, um título de Fórmula 1, o cinturão dos peso-pesados? Alegria popular? Orgulho nacional? Triste do país que precisa dessas quinquilharias para se dar alguma valia, para avivar sua auto-estima. Triste do povo que separa cuidadosamente parte de seus minguados rendimentos para poder ver de longe seus ídolos esportivos nadando em rios de dinheiro.

E triste da humanidade inteira, que caiu espiritualmente tão fundo a ponto de não mais conseguir enxergar o papel deplorável que exerce ao enaltecer essas coisas sem nenhum valor, frutos do raciocínio calculista, materialista, em detrimento do aperfeiçoamento espiritual. Triste das nações desportivas desse mundo, que podem ver numa maratonista que chega quase desfalecida à linha de chegada, o maior exemplo da "tenacidade humana que supera todos os obstáculos", do "ideal olímpico elevado ao seu mais alto grau". Aquela atleta claudicante, até hoje alvo de loas em todo o mundo, não fez mais do que cometer um grave delito contra seu corpo, ao levá-lo a um estado de extenuação completo, a ponto de quase sofrer uma síncope nos braços do médico que a aguardava junto à linha de chegada. O médico torcia para que a jovem tão valente, corajosa ao extremo, conseguisse vencer o desafio olímpico traçado à sua frente, o qual poderia ter-lhe custado somente a vida. Ambos não passam de criminosos, e o mundo inteiro que torcia em conjunto, cúmplices.

Um argumento poderoso em favor do esporte, repetido vezes sem conta por entendidos em educação, é de que ele afasta os jovens carentes da violência e das drogas. É mesmo? A prática desportiva possui o poder de desviá-los dos muros da FEBEM, ou de retirá-los de lá e conduzi-los a uma vida digna e honesta? Quantos jovens delinqüentes e viciados em drogas saem efetivamente recuperados dos centros de reeducação, onde o esporte é prática diária? Quantos deles saem de lá tão transformados interiormente, a ponto de poderem retornar ao convívio em sociedade, interessados no bem-estar do próximo?... Nenhuma criatura interiormente má, de índole maléfica, consegue limpar a violência impregnada em sua alma corrompida com saltos e corridas, nem tampouco é capaz de trocar a seringa pela bola, seja de que esporte for. Em sua quase totalidade, o viciado não deixa as drogas pelo esporte, mas continua se esvaindo com ambos os tipos de entorpecentes.

O esporte competitivo é sempre nocivo, nunca contribuiu para melhorar em nada o íntimo do ser humano, ao contrário, só fez incutir nele o anseio de sobressair a todo custo. Essa competitividade continuamente nutrida por centenas de milhões de terráqueos não ficou sem efeito no ambiente mais fino que nos envolve. Extrapolou o âmbito dos estádios e passou a exercer sua influência nefasta num sem-número de almas humanas que trazem em si um pendor semelhante. Estas passaram a ser então literalmente assediadas por essas influências, impingindo nelas a necessidade permanente de competir e competir, para vencer na vida e salientar-se a qualquer preço.

Os efeitos globais dessa insânia são terríveis. Como, devido a isso, quase todos os seres humanos se vêem hoje como competidores em tudo, leais ou não, uma simples rusga de trânsito pode facilmente desembocar numa tragédia, e o próprio trânsito torna-se pista de competição para os atarefados pilotos do dia-a-dia. A derrota numa inocente partida de dominó ou num jogo de cartas tem cacife para infartar qualquer um dos entusiasmados competidores. Um gol no final do segundo tempo é motivo para pancadaria e morte entre as grandes massas de competidores, denominadas "torcidas". Torcida é bem o termo para essa espécie de gente belicosa. As empresas, grandes ou pequenas, não visam mais aperfeiçoar seus produtos e garantir sua sobrevivência, mas principalmente destruir seus competidores, esmagar a maldita concorrência. Um grande empresário afirmou que se um concorrente seu estivesse se afogando, sua primeira providência seria enfiar uma mangueira de água na sua boca. Declarações como essas são tidas como ditados de suma sabedoria, máximas de grande inspiração, e utilizadas em cursos de aperfeiçoamento de executivos. Como se estes campeões de stress não tivessem sido ensinados, desde tenra infância, a se preparar para uma luta renhida no assustador mundo competitivo que os aguardava lá fora, de tocaia, tal qual um bicho-papão insaciável. "O importante é competir!" Eis é o lema atual da raça humana. Os países competem loucamente entre si, em corridas armamentistas, espaciais, comerciais e culturais. Competem e competem. Todos competem. E ninguém mais vive.

Esse é o resultado da competição e da competitividade desenfreada, o mundo competitivo em que vivemos, do qual o esporte é seu principal fomentador e patrocinador. É isso que a humanidade tem a apresentar no presente, ao término do período concedido para o seu desenvolvimento. Um grande estádio planetário, com bilhões de competidores infelizes, vazios espiritualmente, é a taça que ela pode erguer agora em triunfo para o seu Criador, como fruto máximo de sua evolução.

Contudo, se ela pudesse ver com clareza o que gerou para si mesma com isso, se pudesse ter um pequeno vislumbre do que a aguarda na reciprocidade, prontamente mudaria seu lema para: "O importante é sobreviver!" Sobreviver espiritualmente, poder subsistir agora, na época do ajuste final de contas.

Sonhar um pouco de vez em quando não é errado, pois isso não acirra nenhuma competição. Mas enquanto alguns poucos ainda se permitem sonhar acordados com uma improvável, talvez impossível melhoria da humanidade, esta vive sonhando com sua própria grandeza, embalada na ilusão de sua importância e de seus feitos esportivos. Em breve, todos nós acordaremos.


Nota do Editor: Roberto C. P. Júnior é espiritualista, mestre em ciências e autor dos livros on-line "Vivemos os Últimos Anos do Juízo Final" e "Visão Restaurada das Escrituras".
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