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Vou deixar de lado por um instante as discussões teóricas, filosóficas e políticas relacionadas ao meio ambiente. O excesso dessas discussões acaba distanciando o leitor de sua própria realidade e lhe causa aquela sensação de pequenez que só sentimos diante da TV e de outros veículos que artificializam a realidade. Documentários, campanhas de grandes ONGs, discursos, todas essas coisas pretendem que o indivíduo forneça alguns níqueis e fique quieto no seu canto, fazendo as mesmas coisas de sempre. Gostaria que as coisas não fossem assim. Seria muito melhor se estes textos fossem capazes de fazer o leitor pensar um pouco - só um pouco - e sair à rua ou ao quintal de sua casa para observar um pouco o chão nu que ainda resta ao seu redor. Porque, no fim das contas, é lá fora que tudo acontece, não aqui, na frente de um monitor. No que diz respeito ao meio ambiente, ler é apenas uma entre tantas ações possíveis para um cidadão comum. Observar o mundo atentamente (sua rua, sua casa etc.) é outra ação, ao meu ver, mais importante e necessária, na medida em que permite preservar a potência e o realismo do indivíduo. Nossa capacidade revela-se nas pequenas coisas e para percebê-las é necessário aproximar-se delas. Recentemente percebi essa capacidade individual com mais clareza. Comi uma manga num desses dias quentes que não pedem nada além de uma fruta gelada e doce. Tenho um pequeno quintal em casa, com um hibisco e algumas bananeiras. Joguei a casca da manga na base do hibisco, que semanas mais tarde a tinha absorvido por completo. O caroço, simplesmente o finquei num pedaço de terra que não estava coberto pela grama. Hoje, alguns meses depois, tenho um pé de manga em meu quintal. Ainda é pequeno e não dá frutos, mas o caroço vingou, e é isso que importa. Daqui uns anos, isso significará ter uma árvore frondosa em meu quintal, que dará sombra e frutos. Tudo que fiz foi alterar o rumo do caroço de manga. Pretendia jogá-lo no lixo, dentro de um saco plástico - o que o condenaria à podridão hermética -, mas em vez disso preferi cravá-lo na terra, algo que foi feito com minhas próprias mãos. Não tive nem o trabalho de pegar uma pazinha. É um exemplo bobo, simples demais, mas que traz em si a perspectiva de dias melhores - um dia, por exemplo, em que não precisarei pagar para comer mangas e que terei mais sombra no quintal de casa. Sempre fui urbano demais. Embora viva numa cidade pequena, levo uma vida tipicamente urbana, sem pés no chão e mãos na terra. O caroço que vingou demonstrou que plantar árvores é mais simples do que parece. Se existe um quintal por perto e a terra não é arenosa, basta fincar um caroço no chão, exatamente como fiz. Se essas condições não estão disponíveis, um vaso com terra pode sustentar o caroço até que ele se torne uma planta e, a partir daí, basta doá-la a quem queira ter uma árvore frutífera no quintal (quem não quer?). Plantar árvores frutíferas é um gesto simples, que não consome tempo nem dinheiro e ainda oferece a perspectiva de dar sombra e alimento de graça. Como se isso não fosse razão suficiente para plantar uma árvore, ofereço mais algumas: 1) Quase toda prefeitura mantém um viveiro municipal, que fornece mudas de espécies nativas para reflorestamento e arborização urbana. Esses lugares, além de comuns em muitas cidades brasileiras, costumam orientar o cidadão na escolha da espécie mais adequada conforme as necessidades de sombra, frutos e dimensões. 2) A sombra que as árvores produzem pode melhorar o conforto térmico dentro de uma casa. Boa parte do calor que a invade é produzido por reflexão. Quanto mais áreas externas sombreadas, menor a reflexão do calor e melhor o conforto térmico dentro da casa. O efeito é semelhante ao de uma varanda, que sombreia e permite a ventilação ao mesmo tempo. 3) A presença de árvores nativas ajuda a recompor a fauna da região, que depende dessas árvores para viver. Há uma proporcionalidade entre flora e fauna, o que explica, por exemplo, a raridade de pássaros silvestres onde a vegetação nativa foi destruída. 4) O plantio de árvores frutíferas é simples e necessário. A miséria quase sempre é acompanhada pela destruição indiscriminada de áreas verdes (observe uma favela). O oposto pode ser verdadeiro: a miséria de um lugar pode variar conforme a existência de árvores frutíferas. A miséria não atinge quem tem um pomar no quintal. 5) As árvores ajudam a estabilizar o solo em encostas, diminuindo o risco de deslizamentos e erosão. Todos os deslizamentos em encostas acontecem em lugares que foram ocupados sem critério e de onde a cobertura vegetal foi totalmente subtraída. 6) O espaço urbano arborizado é normalmente mais agradável e costuma ter maior valor imobiliário. Observe que em cidades grandes, os bairros mais valorizados são aqueles que têm mais árvores, onde as ruas são alamedas. Certamente há mais razões para plantar árvores. Uns preferirão plantar para ter sombra; outros, para ter frutos - talvez limões ou abacates em vez de mangas. O importante é que a arborização aconteça, principalmente nos lugares mais carentes de árvores. É um gesto simples, bom e barato. E que dá frutos.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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