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Opinião
19/08/2004 - 13h27
Bom senso ecológico
Christian Rocha
 

Lembro como se fosse hoje. Ao lado de minha casa havia um grande terreno, ocupado apenas por uma vegetação rasteira que preenchia o espaço entre algumas árvores miúdas. Vez ou outra eu ouvia um cavalo pastando. Pela manhã, pássaros comiam frutinhas e ciscavam procurando insetos. Um dia, não faz muito tempo, uma cobra aventurou-se sobre o muro que separava os dois terrenos. Era como um grande jardim selvagem.

O tempo passou e logo o capim e as arvorezinhas foram substituídas por uma casa feia e inacabada. O barulho dos pássaros foi trocado pelo som da serra circular e da betoneira. Incomodava-me o desmatamento do terreno ao lado - alguns chamam de limpeza - e, ao mesmo tempo, a substituição por algo tão imperfeito.

O incômodo, contudo, não me impediu de pensar em algumas coisas importantes, que, findo o raciocínio, me trariam algum sossego.

O terreno onde fica minha casa também foi um terreno coberto de plantas e bichos. Provavelmente havia plantas, pássaros e cavalos pastando. Quando minha casa foi construída já havia também uma casa num terreno vizinho. Provavelmente o barulho da obra incomodou o proprietário e lhe tirou o conforto de ter uma mini-floresta ao lado de sua casa. Mais ou menos como tem acontecido comigo.

Indo um pouco além nessa viagem ao passado, posso ver que todos os terrenos do bairro onde moro tinham suas respectivas mini-florestas - talvez com insetos guizalhando, pássaros chilreando e cavalos pastando. Como não havia divisões entre elas, eram percebidas através de sua soma, que era chamada de floresta. A conclusão a que se chega vale para toda a cidade e talvez para o mundo: não existe crescimento urbano sem prejuízo para o meio ambiente.

Desagrada-me, contudo, a possibilidade de que esse fato seja usado para justificar o radicalismo ecológico de alguns defensores da natureza - o clichê é preciso neste caso. A urbanidade causa danos ao meio ambiente, mas nada impede que tomemos a consciência deste fato como base para a construção dessa mesma urbanidade, ou de algo que traga benefícios tanto para pessoas - que precisam de lares, escritórios e mercados - como para plantas e bichos - que precisam de água e ar puros e espaços amplos e abertos. Todos somos cúmplices desse conflito entre cidade e natureza e, por isso, não é hora para moralismos hipócritas.

O desmatamento e a ocupação de um terreno são conseqüências do direito de propriedade: utilizo como quiser aquilo que me pertence. A lógica fica confusa quando consideramos que o direito à propriedade pode contrariar o direito à vida de algumas espécies: construir uma casa implica cortes de árvores, movimentos de terra e outras interferências do gênero. Cria-se um impasse com isso, e um proprietário consciente não construiria uma casa sem antes pensar um pouco nessas coisas. A maioria, no entanto, recorre à tabula rasa: prepara o terreno da maneira que lhe seja mais adequada, reduzindo os limites para o projeto da casa dos seus sonhos. Não me arrisco a excluir-lhes esse direito, invariavelmente previsto em lei, mas cabe aqui um apelo ao bom senso: é papel de todo arquiteto e engenheiro elaborar projetos que observem o impacto de suas obras no meio ambiente. Nada impede, por exemplo, que um sabiá e uma família ocupem o mesmo terreno. São belas e raras as obras que celebram a vida como um todo: homens, plantas e animais. Paradoxalmente, são irritantes as obras que celebram sua própria existência, muitas vezes em detrimento desses mesmos seres, inclusive daqueles que as criaram.

O papel do urbanista não é menos importante. A obrigação que o arquiteto e o engenheiro têm numa escala reduzida, o urbanista tem numa escala mais ampla. Assim como no caso das obras de engenharia e arquitetura, é fácil perceber quando uma cidade foi planejada para automóveis e edifícios ou para pessoas, por exemplo. Parques ajudam nessa humanização, embora às vezes cumpram o mesmo papel dos jardins em volta de uma casa. É necessário ir além, promover a mistura de coisas humanas e coisas naturais (o contraste é impreciso: o que é humano também é originalmente natural). Aliás, uma definição de cidade feita para pessoas: aquela em que pedestres e ciclistas se sentem à vontade para ir e vir.

Mas o bom senso ecológico não depende apenas de bons profissionais - embora estes sejam movidos pela ética e ofereçam a seus clientes a garantia de equilíbrio entre interesses construtivos e ambientais, como benefícios para os dois lados. Cada pessoa tem em si a capacidade de observar, de se questionar e de pensar nestas e em outras questões. Assim como cada terreno possuía inicialmente uma mini-floresta, cada proprietário pode ser considerado um mini-prefeito na medida em que são suas decisões que determinarão o destino daquela área. Ele determina tudo numa propriedade que lhe pertence: desde a preservação de espécies nativas até a escolha de um profissional que lhe elaborará um projeto.


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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