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Crônicas
30/03/2004 - 13h34
31 de Março de 1964 - Depoimento
Ernesto F. Cardoso Jr.
 
Verso de um Capítulo
 
 
  

Eram 6:30 da noite de 30 de março de 1964. Em cima da hora, dirigia meu fusca em direção ao subúrbio carioca de Brás de Pina onde, no turno da noite, em segundo emprego, lecionava no Colégio Estadual. Ao passar pela Av. Francisco Bicalho (Canal do Mangue), em frente à Estação da Estrada de Ferro Leopoldina, fui parado por uma composição de vagões de carga, puxados por enorme locomotiva, que atravessou toda a avenida fechando completamente a entrada e a saída da cidade por aquela principal via, paralisando totalmente o trânsito. Imediatamente, homens surgiram de todos os cantos, extremamente agitados em atitude desafiadora intimidando qualquer resistência ou protesto. Ninguém ousou buzinar. Silêncio paradoxal.

Além de professor no Estado era, também, funcionário da Embaixada Americana, Assessor de Economia e Finanças Públicas. Há dois dias, todavia, nós, funcionários, não comparecíamos ao trabalho, pois, a Embaixada tendo conhecimento de que a situação se tornara bastante explosiva sob a intensa agitação das esquerdas em que se encontrava, especialmente, o Rio de Janeiro, impediu-nos de comparecer ao trabalho por não poder garantir-nos a vida.

Em meu fusca, de repente, achei-me defrontado por aquela maciça composição ferroviária, símbolo perfeito do clima que se estabelecera. Achava-me no extremo da pista esquerda da avenida, sem evidente chance de prosseguir. Como uma faísca, em angústia terrível, olhei para a direita e vi que a rua, há poucos metros de onde eu estava, onde logo na entrada se localizavam as Usinas Nacionais (empresa estatal de açúcar), ainda não fora fechada e se a atingisse, em tempo, poderia ter uma chance de retornar para casa.Verifiquei que o espaço entre a composição ferroviária e a linha de carros postados defronte, à minha direita, até o passeio do outro lado, dava para espremer um fusca. Em segundos, consegui atingir esse ponto, por onde, dirigindo em cima do passeio, por uns 30 metros, atingi a entrada da rua da usina quando os piquetes, que de lá saíam, já começavam a bloquear, também, aquela saída. Em velocidade pus-me em rota para casa.

O ambiente político era, há meses, de grande efervescência. Sindicatos de todas as categorias, mesclados com boa parcela do pessoal subalterno das Forças Armadas, em declarada indisciplina e inversão hierárquica, sob o comando de alguns oficiais superiores, especialmente, do Exército e da Marinha, altamente politizados e em aberta aliança aos movimentos da esquerda, açulada por Brizola e Jango Goulart, haviam realizado, dias antes, enorme comício na Central do Brasil, agitando as massas para a realização das chamadas "reformas de base", num claro contexto de iminente quebra da normalidade democrática.

Esta efervescência política vinha, na realidade, num crescendo constante desde a posse de Jango na Presidência da República, garroteado por seu cunhado Brizola, Deputado Federal pelo RS, que se transformara num dos principais agitadores das massas.

Em janeiro daquele ano formara-me em Economia, pela antiga Universidade da Guanabara, atualmente UERJ. Fora escolhido orador da turma, que teve como patrono Carlos Lacerda, Governador do Rio. A eleição, tanto do patrono como a do orador, rachara a nossa turma de formandos quase ao meio e tivemos a tristeza de não contar com a presença do grupo oposto na festa de formatura. Isto dá uma idéia da radicalização que vinha se avolumando dia a dia, três meses antes do final de março.

De regresso à minha casa, felizmente incólume, já cerca de umas oito horas da noite, juntei meus filhos e minha esposa e disse-lhes que corríamos risco de vida, pois, sendo funcionário da Embaixada Americana, caso as esquerdas tomassem o Poder, como tudo estava a indicar, teriam-nos como inimigos, a despeito de que todas as Embaixadas, no mundo inteiro, por convenção internacional, dispõe de um grupo de funcionários locais, autorizados pelo governo de seu país.

Foi uma noite extremamente angustiosa e penosa. Pela rua onde morava, no bairro de Santa Tereza, acesso à Floresta da Tijuca, carros seguiam em colunas por toda a noite, buscando abrigo na mata das montanhas que formam essa floresta entre o Silvestre e a Barra da Tijuca. Via-se o medo, a ansiedade, a angústia, no silêncio total de buzinas e de tudo que pudesse chamar a atenção. A rua estava deserta, as portas da padaria, do bar, da farmácia fechadas.

A Televisão e as estações de rádio haviam quase emudecido. Não havia idéia do que se passava ou estava por acontecer, porém, uma coisa todos temiam - a tomada do Poder pelas esquerdas radicais.

O dia 31 amanheceu. Poucos se arriscavam ir à rua. A manhã transcorrera quieta, até que por volta das 14 horas, ouviram-se as primeiras notícias pela televisão e pelo rádio. As Forças Armadas, comandadas por generais, alguns até ressurgidos da reserva, de seus lares, com forte e decisivo apoio das Polícias Militares do Rio, São Paulo e Minas Gerais, sob o controle de seus Governadores, Carlos Lacerda, Ademar de Barros e Magalhães Pinto, respectivamente, haviam assumido o Poder, derrubando o governo "legal". A calma se restabelecera. Brizola, Jango e seu séquito haviam fugido para o Rio Grande do Sul, onde dizia-se que haviam depenado o Banco do Brasil cruzando, após, a fronteira rumo ao Uruguai. Os demais ativistas da hora, ou haviam dado no pé, ou começavam a ser presos pelas forças militares.

A partir daí, o Brasil entrou na longa noite escura, de triste memória, da ditadura militar que ninguém desejara, mas, que é vista sob óticas tão distintas e confrontantes, como deste depoimento se pode inferir. Horrores, de ambos os lados, foram perpetrados, obviamente, em maior número pelos que detinham o Poder.

A pergunta que me faço e espero ter a compreensão dos que me lêem nas linhas e nas entrelinhas, tenham a ótica que tiverem, é esta: será que as forças derrotadas em 64, caso tivessem sido vitoriosas, teriam sido mais magnânimas? Teriam cometido menos horrores?

A história da revolução bolchevique de 1917, na Rússia, sua extensão pelos países do leste europeu postos sob o domínio dos comunistas por décadas a seguir; da revolução cubana, mais recente e que, até hoje, multiplica suas vítimas; do domínio comunista do leste asiático, onde milhares ainda se encontram em prisões terríveis por razões políticas, não nos parecem demonstrar o contrário do que propus acima.

O 31 de março de1964 foi e continuará a ser discutido, por muitos anos, ainda, até que a poeira dos sentimentos feridos e das injustiças e perseguições sofridas se desfaça, como tendo sido um GOLPE, ou um CONTRAGOLPE?

Esta é uma história real, verdadeira, vivida por quem, provavelmente, não estaria aqui para conta-la, caso o desfecho desse 31 de março tivesse sido outro.

É o outro lado da história, paradoxalmente vitorioso, mas, deslustrado pela ditadura que ninguém queria e que manchou a limpeza que o povo pedira naquela grande marcha que tomara as ruas do Rio, semanas antes, em defesa da ordem e da liberdade.

Viva, pois, a democracia que renasceu, "o pior dos regimes, à exceção de todos os demais que já apareceram por aí". Sir Winston Churchill, o herói da liberdade que hoje o mundo desfruta, em boa parte...

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