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Os problemas acumulados de um sistema em ruínas não impressionam tanto quanto a constatação de que o sistema continua funcionando, apesar desses problemas. Isso faz crer que há valores e energias escondidas sob os escombros, pois só essas coisas são capazes de manter a vida. Estas são as idéias que me vêem à mente quando observo São Paulo. Quando as hordas dominam as ruas da capital, o colapso pode ser sentido na carne. A visão da larga avenida tomada pelos carros faz lembrar um sujeito acometido por arteriosclerose. São Paulo, 450, vai enfartar. Mas então o céu se abre, o semáforo sinaliza o vermelho, os carros param e os pedestres caminham, nervosos mas em silêncio. O azul volta a aparecer; percebem-se pássaros no Parque Trianon e os rostos das pessoas podem ser vistos, um a um. É por causa do indivíduo que São Paulo não falece. Onde só se vê o anonimato, o indivíduo constrói familiaridade, sem perceber que desta forma a cidade consegue resistir e fazer aniversário. Certos lugares tomam uma direção contrária. Vulgarizam-se (isto é, buscam o valor médio) onde a singularidade tem predominado há séculos. É por este apreço que os paraísos se arruínam. É isto que conduz lugares maravilhosos ao terrível espetáculo do crescimento desordenado. Curiosamente, a vulgarização acontece quando as pessoas recorrem aos aparatos individuais. Um automóvel singulariza o indivíduo, mas o torna vulgar, na medida em que este é o meio de transporte de uma parte significativa da população. Submeter cidades inteiras aos projetos viários moderniza a vida urbana e, ao mesmo tempo, condena o indivíduo a existir como estatística da engenharia de tráfego. A cidade não deve ser conseqüência de sua malha viária, mas sua causa (isto é tão óbvio que chego a sentir dores ao escrever esta frase). *** Vejo, por exemplo, o início das obras na Av. Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. A prefeitura está implantando uma série de passagens subterrâneas para facilitar o trânsito na avenida e arredores. Quatro coisas são evidentes: o custo e a complexidade das obras, o transtorno causado aos motoristas e a ignorância em relação às causas dos problemas de trânsito na capital paulista. Este último fator nos lembra que governos estão muito mais acostumados a lidar com números e máquinas do que com pessoas. Urbanistas dizem que o custo das obras seria suficiente para melhorar o sistema de transporte público na região. Não se sabe até que ponto isso é verdade, pois a utilização de transporte público depende de disponibilidade, eficiência e segurança, virtudes raras nos sistemas de transporte das capitais brasileiras.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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