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Eis um dos grandes legados da Grécia antiga, a democracia e, eis uma das grandes deturpações da sociedade moderna: a democracia das massas, essa versão degradada inspirada em uma idéia áurea. Tal degradação, presente em nossa sociedade através desta sua forma disforme em que ela, a sociedade, se constitui, onde se procura balizar os ideais ditos democráticos sem a menor compreensão dos valores que esse coaduna. A palavra democracia como tantas outras que se encontram presentes nas bocas hodiernas desta nação de cidadãos que se constitui em uma massa ignara pretensiosa e pedante. Todavia, a compreensão da concepção de mundo que ela traz em seu bojo foge-lhe a mais leve sinapse mental. Um dos pontos mortificante que vejo na apresentação desta deformação é justamente o que entendemos por maturidade política numa sociedade em que o dever/direito do voto é facultado a jovens de apenas 16 anos de idade e, onde se permite que um imbecil que saiba meramente responder algumas questões primárias para assim disfarçar o seu analfabetismo funcionalmente crônico possa assim responder por uma legislatura ou pela administração de um município. Porém, o ponto que procuramos destacar neste ínterim é justamente a questão do conceito de maturidade política populista adotada por essa nação a partir da Carta Magna de 1988. Pergunto-me cá com meus botões muitas vezes até que ponto um adolescente é maduro o suficiente para apontar os rumos que a polis brasilis deve tomar? Pergunto-me se somos nós que temos um conceito disforme ao auferir o título de cidadania a crianças e a obtusos, ou os gregos que apenas laureavam aqueles que tivessem completado três décadas de vida? Talvez esteja eu enganado, mas tomemos quatro exemplos emblemáticos dessa condição patética. Quando eu, aos meus dezesseis anos de idade fui votar para presidente da república, confesso que estava deveras confuso, pois não tinha uma clara compreensão do que é o Estado, do sistema partidário de nosso país, dos estatutos e propostas que esses teriam para apresentar a nação e o que seria mesmo, de fato, uma democracia. Bem, em minha ignorância contingente, acabei por confiar na maturidade política de maus pais. Hoje, não me arrependo de tal atitude. Que poderia eu fazer naquela condição? Exercer minha "cidadania"? Outros exemplos não são assim tão benévolos. Em uma eleição municipal vi, estarrecido, uma moça (que alias nem votava ainda) aos berros em frente ao Colégio onde leciono a gritar "hoje é o dia mais feliz de minha vida", só pelo fato de um determinado candidato que ela tinha simpatia ter sido consagrado pelas urnas. Me pergunto: isso é cidadania? Creio que nenhum professor ensinou isso em sala de aula, mas, tenho plena certeza que a sociedade assim procedeu com o seu modelo disforme de espetáculos baratos para manipulação dos ânimos das multidões com seus showmícios, carreatas, carros e casas entupetados com adesivos e tutti quanti, portando-se de uma maneira histérica e massiva, como manda a "democracia populista" tupiniquim. Pior que isso, foi a resposta que um jovem, com um adesivo de seu candidato no peito, deu-me quando lhe perguntei o por que de seu apoio a ele? Disse-me que porque o fulano era gente boa. Pode uma coisa dessas! Imaginava eu que não poderia haver resposta pior para uma pergunta tão simples e ao mesmo tempo tão basilar. Como fui pouco imaginativo. Recentemente, fiz a mesma para um outro jovem, muito bem instruído (estudou em colégios tidos como de excelência em educação), e esse respondeu-me simplesmente porque sim. Estupidamente insisti para ver se encontrava uma resposta melhor ao bom e velho estilo socrático e o que obtive? A pérola: "eu voto em quem eu quiser e ninguém tem nada que ver com isso"! E isso é a democracia brasileira moderna. Com toda certeza nem Péricles e muito menos Clístines imaginavam que o seu modelo de governo poderia ter sido um dia transmutado assim de maneira tão aviltante. Alias, creio que estamos longe de termos um estadista como o primeiro e muito mais distante ainda de um dia termos um legislador como o segundo. Creio que com essa cidadania bem ao nosso jeitinho continuaremos a ter legisladores a la Sarney e estadista a la... por muito tempo.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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