|
Dias atrás, uma professora iniciante contava-me que ela estava a contar os dias nos dedos em que ela iria parar de lecionar, pois não suportava mais ficar em sala de aula. Ela não havia se identificado com o ofício, não suportava a precária educação de seus educandos mancebos. Enfim, não era a praia dela e por isso estava jogando a toalha. Atitude essa mui digna. Não só pelo fato de reconhecer que não tem afinidades para com um determinado ofício, mas principalmente em reconhecer que o ofício do magistério, apesar de parecer simplório, é de grande complexidade não apenas na dimensão meramente pedagógica, como também e principalmente de condicionamento psicológico para trabalhar com grupos de pessoas que, em muitos casos, não estão ali por vontade própria, mas simplesmente porque foram obrigados. Atitude avessa à desta moça, seria a atitude de determinados pais, verdadeiros estandartes da estupidez humana. Alias, põem humana nisso. Figuras essas que adoram crucificar os mestres como incompetentes, como incapazes. Adoram tachar a instituição de ensino como desorganizada, de má qualidade e coisas do gênero que vão se seguindo rincão à fora. Esquecem-se estes de perceber que o ofício de professor é um ofício em que até o mais leve gesto é vigiado pelos seus alunos e por todo aquele que está envolvido direta ou indiretamente com o sistema educacional. O escritor Vance Packard em sua obra A SOCIEDADE NUA, enfatiza essa situação em sua terra natal - USA - a qual, no que tange a essa questão, não difere da nossa. Se não bastasse isso, temos até gravadores portáteis que podem e são utilizados para, ou acompanhar as aulas dos professores, ou simplesmente para vigia-los quanto ao mais leve deslize. Trocando em miúdos: já parou para pensar o que é exercer um ofício em que até o seu gesto mais miúdo é acompanhado e mesmo avaliado por todos os tipos de olhares possíveis e, na maioria dos casos, olhares desqualificados? Já parou para pensar em um ofício em que a perfeição é constantemente cobrada mesmo sem ser um fuzileiro naval ou astronauta da NASA? Bem, essa profissão é o magistério. Exemplo dessa vigilância constante e desta cobrança de pseudo-perfeição abundam por esse mundo afora, mas, destaquemos uma apenas, a qual, quando chegou a meus ouvidos, confesso que me revoltou. Recentemente professores de um colégio relataram-me que os pais de seus alunos disseram que deveria-se demitir os professores que estivessem com atestado médico. Ou seja: professor não é gente, é máquina. Como também disseram que professores não deveriam sair de candidatos a cargos eletivos. Ou seja: professor não é cidadão, é escravo de famílias mediocráticas. Por isso, digo e repito, digno seria que esses tipos ignóbeis, pelo menos uma vez na vida, trabalhassem em uma sala de aula. Não por um dia, mas por pelo menos um bimestre e não só com uma turma, mas pelo menos 5 turmas, totalizando umas 20 aulas (não vamos também exigir que seres como esses encarem um front de 40 horas/aula). E diante de um desafio como esse, fico a perguntar-me: Será que esses [...] teriam a coragem de encarar uma situação como essa e se sair com a beatitude que eles exigem dos docentes de seus filhotes? Provavelmente não. A covardia é uma característica geral da humanidade seguida da hipocrisia. Mas, se a coragem falta a esses senhores e senhoras, que então engulam a sua hipocrisia e tente ser um pouco, não precisa ser muito, empático e se coloquem no lugar dos alvos de suas críticas antes que tecer os seus veredictos despóticos e aparvalhados. Todavia, vê-los em sala de aula, com toda certeza, seria uma experiência do além.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
|