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"A história se abrevia em histórias vividas no dia a dia". (Michel Maffesoli)
Uma das características que podemos atribuir a modernidade é a sua intenção de racionalizar a sociedade em sua organização e em sua percepção e compreensão de si própria. Acreditavam os filósofos enciclopedistas que apenas a razão poderia libertar os homens das trevas da ignorância e da tirania dos preconceitos. Malgrado ao seu intento, a modernidade acabou por parir novas formas de obscurantismo e de preconceitos, tão perversos quanto os que se pretendia combater. Uma das coisas que a modernidade, enquanto projeto de sociedade, se opõem é a tribalidade. Mas, o que seria tribalismo? A grosso modo, seria um grupo humano que não tenha uma noção de profundidade histórica de si e do mundo em que vive se identificam como tendo algo em comum. Acredita em uma explicação mítica da origem do mundo e de seu grupo como sendo todos os seus membros descendentes de um ancestral (ou ancestrais) em comum. Esses celebram símbolos que representam isso, veneram as suas origens e consideram todo aquele que não integra o seu grupo como sendo um "não-ser", ou como um inimigo. Ou você é parte da tribo, ou então é visto como intruso da tribo e, por assim dizer, membro de uma outra tribo. Em nossa sociedade, filha bastarda da modernidade, temos inúmeros exemplos que poderíamos apontar como os nacionalismos, as gangues, as marcas e tutti quanti. Todavia, a mais curiosa de todas e a que mais desperta esse aborígine que habita em nós, são os pleitos eleitoreiros para os cargos públicos municipais. A população fica embebida de tal maneira que chega a ser até patética a imagem da "festa da democracia". Para todos os lados que voltamos nossos olhos, vemos pessoas, carros, casas, todos identificados com um adesivo ou coisa do gênero que representa o grupo político que fulano ou beltrano apóiam onde todos passam a se identificar mutuamente como as tribos com suas pinturas corporais. Cantam as paródias de seus candidatos como os guerreiros cantavam seus hinos de guerra. Ostentam as bandeiras de seus grupos políticos como se fossem as bandeiras de uma "nação" e reverenciam os seus candidatos como se esses fossem um totem de grupo. E o mais interessante é quando eles se defrontam uns com os outros, aí o angu fica cômico, pois aguça-se as provocações e essas não são contra a pessoa em si que está diante deles, pois esses não mais vêem a singularidade da figura humana, mas sim, a imagem do grupo e insultam qualquer indivíduo a partir do grupo político que eles fazem parte e não pela pessoa que o indivíduo é. Some a figura do eu e impera a imagem do nós. Não existe mais João ou o Pedro, mas os 55, os 69 ou, os Silva ou os Alcântara, de acordo com o sobrenome do candidato e o número de seu partido. Mas, se perguntarmos o porque, se esses cidadãos tribais conhecem realmente a biografia de seus candidatos e se eles e seus candidatos realmente compreendem as implicações de suas plataformas políticas e ideológicas, provavelmente teremos um silêncio de mausoléu esquecido, similar a memória e a capacidade encefálica destes indivíduos. Tal característica, também oposta ao que o empirismo proposto pelos filósofos da Ilustração. Para esses militantes de grupos de pressão não faz-se necessário compreender a causa de sua indignação para verificar a sua concretude. Basta-lhes apenas indignar-se e depositar a responsabilidade por todos os males em um bode expiatório e tcha tcha tcha!!! Acabaram-se com todos os problemas do mundo como em um despacho de macumba ou em um suposto exorcismo de uma igreja "neopentecostal". Tudo isso para entrada de nossos diabetes, é claro, mas que são seus amigos. Passaram-se já duas centúrias desde o manifesto dos filósofos Iluministas e sua crença na razão, de que o ser humano poderia se tornar algo melhor e, cá estamos nós, nos esforçando dia após dia, para nos tornarmos o pior possível e, nesse nosso esforço macunaímico, chegaremos lá. Só não sabemos aonde.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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