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Opinião
12/09/2004 - 12h11
De heróis e de história
Jaime Pinsky
 

Que seria dos americanos sem os heróis da conquista do oeste? Não a conquista de verdade, aquela que foi feita à custa da devastação de planícies, búfalos e índios, da vitória dos fortes sobre os bons, e dos espertos sobre os cultos, mas aquela que está colada no imaginário das pessoas, a da conquista do indivíduo sobre a massa, do destemido sobre o fraco, do vencedor sobre o fracassado?

Que seria da França sem Joana D’Arc? Não a mocinha esquizofrênica, que ouvia vozes, foi manipulada pelos poderosos e acabou sendo queimada viva depois de ser torturada pela Igreja; mas a "Virgem de Orleans", cuja pureza é reverenciada até hoje pelos nacionalistas franceses e provocou seguidores tão improváveis, como o próprio De Gaule, que se sentia uma espécie de reencarnação dela.

Nações, religiões e até famílias buscam legitimar, por um passado suposto, seu presente desejado utilizando-se de um recurso que chamamos "uso da História": se aquilo que de fato aconteceu não é o que se deseja, inventa-se um outro passado... De uma forma até comovente, pelo patético da situação, famílias de imigrantes enriquecidos e celebridades do momento correm atrás de árvores genealógicas transgênicas, que têm por função encontrar uma certa nobreza - acompanhada pelos inevitáveis brasões - entre descendentes de comedores de polenta do Vêneto, camponeses alemães, ou carroceiros poloneses.

As religiões agem mais ou menos do mesmo modo. Não por acaso, tanto Moisés, entre os hebreus, como Gilgamesh, entre os balibônicos, teriam sido salvos das águas por alguém que lhes propiciou um grande futuro e se tornaram heróis e líderes de seus povos. Não por acaso, no mito da fundação de Roma, a mesma historia é recontada com relação a Rômulo e Remo, até na versão irônica de Tito Lívio. A idéia de que a divindade em que acreditamos correu sério risco de vida na infância, ou renasceu após a morte, é um aceno de algo sobrenatural, um milagre que tem por função impressionar os céticos e levá-los a aceitar as verdades de religião tão poderosa.

Mitos de origem, não são, pois, privilégio das nações - já que ocorrem nas religiões e nas famílias - mas é aí que vemos o passado idealizado ser mais cultuado. Grandes nações não se conformam com um presente brilhante, precisam elaborar uma origem diferenciada, especial. Histórias fantásticas são criadas para sustentar passados desejados, nomes de pais e mães da pátria são repetidos geração após geração, a ponto de fazer parte do imaginário coletivo. Heróis são glorificados (até santificados como no caso de Joana D’Arc), sua presença é tão viva e próxima, que questionar a perfeição deles provoca comoção entre a maioria de seus adoradores incondicionais. Há mesmo que se tomar certo cuidado ao se discutir a humanidade - e, portanto, as falhas, deles.

E no Brasil? Os mais velhos haverão de se lembrar de uma série de atividades assim chamadas "cívicas" que permeavam a vida dos estudantes há mais de quarenta anos: estudavam-se os hinos, não só nosso belo, mas longo hino principal, como os da bandeira, da independência e muitos outros. A bandeira, por sinal, era hasteada em diversas ocasiões, e as pessoas sabiam de cor o hino apropriado a cada solenidade. Dia 7 de setembro, na minha velha Sorocaba, era dia de todos os colégios desfilarem: metade da cidade assistia, sob um sol inclemente, os milhares de alunos que estufavam o peito e batiam com força o pé esquerdo no ritmo da fanfarra.

O regime militar, instaurado em 1964, levou esse "civismo" ao extremo, diminuindo as aulas de História e criando uma aberração típica de ditaduras chamada "Educação Moral e Cívica". Como dizia o nome, o conceito era inculcar aquilo que os militares e seus aliados consideravam moral e cívico, com destaque para a comemoração dos feitos de Caxias e do aniversário do que chamavam de "Revolução" de 31 de março. A imposição criou tal antagonismo que só puxa-sacos descarados do regime vigente se submetiam ao ridículo de desenvolver o programa "sugerido", sendo que muitos mestres aproveitavam-se do espaço para, dentro do possível, trabalhar com temas históricos. A tentativa de militarização do civismo resultou, a médio prazo, na negação do próprio civismo, tido e havido como coisa de militares reacionários e chauvinistas. O resultado da ópera é que, confundindo o bebê com a água do banho, as escolas e a população têm pouco apego à bandeira, não sabem cantar sequer o Hino Nacional e as pessoas acabam não cultivando as representações da identidade nacional. São, de fato, poucos os momentos em que nossa identidade nacional é sentida e exaltada, a não ser por ocasião das finais da Copa do Mundo de futebol ou na última semana de uma telenovela popular (quando todos choram juntos diante da tevê). A procura de heróis é tão desesperada que até tentaram transformar um medíocre corredor de fórmula 1 em substituto de Ayrton Senna, tentam transformar ginastas e maratonistas em figuras pop e até modelos de tipo escandinavo em protótipo de beleza brasileira.

É aí que temos que dar razão e força ao nosso querido Gilberto Gil, ministro da Cultura, que reclamava por mais respeito aos símbolos nacionais. Se é para dizer como certo antropólogo que o que caracteriza a brasilidade é o ato de se receber visitas com um cafezinho e a preferência por um belo bumbum; se é para se ter como modelo para nossos jovens as celebridades sem talento, os sobreviventes de programas de voayerismo televisivo, quando não os infratores e criminosos de vida breve, talvez seja melhor repensarmos como fazer para fechar melhor a trama do tecido que deve compor nossa identidade nacional e retomar, como outras nações, nossos heróis históricos. Afinal, com todos os defeitos que possam ter tido, figuras como Tiradentes e José Bonifácio dedicaram grande parte do seu tempo e energia em favor de interesses coletivos e podem voltar a funcionar como elementos do nosso passado comum (e a consciência do passado comum é que identifica os cidadãos de uma nação). Claro que junto a esses devemos trabalhar com figuras igualmente representativas como Zumbi, Anita Garibaldi, elementos representativos das culturas indígenas e dos imigrantes que ajudaram a construir este país, assim como gente da cultura tipo Carlos Gomes e Villa-Lobos, Machado de Assis e Graciliano Ramos, e por aí afora.

Exaltar nossos heróis, oferecê-los como traço positivo de união e motivo de orgulho não precisa ser algo que ofenda a História. É só não ficar com síndrome de Joana D´Arc, ou não achar que tudo se resolve a tiros...


Nota do Editor: Jaime Pinsky, doutor e livre-docente pela USP, professor titular da Unicamp, diretor editorial da Editora Contexto, é autor dos livros "Cidadania e Educação" e "História da Cidadania". E-mail: pinsky@editoracontexto.com.br.

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