20/03/2026  21h11
· Guia 2026     · O Guaruçá     · Cartões-postais     · Webmail     · Ubatuba            · · ·
O Guaruçá - Informação e Cultura
O GUARUÇÁ Índice d'O Guaruçá Colunistas SEÇÕES SERVIÇOS Biorritmo Busca n'O Guaruçá Expediente Home d'O Guaruçá
Acesso ao Sistema
Login
Senha

« Cadastro Gratuito »
SEÇÃO
Crônicas
04/04/2004 - 08h31
Coragem etílica
Fátima de Souza
 

A condição de namoro estava tumultuada. Cada vez por mais tempo, a decisão de falar com a família da moça era adiada, mesmo sendo pressionado por ela.

Cadê coragem? Pescador, pobre, não tinha onde cair morto. Com que cara ia chegar no velho dela para pedi-la em matrimônio, amasiamento, ou outra coisa que valesse?

Gostava muito da vida que tinha, sem apologias. Sem aporrinhações. Bem diziam os antigos: "Se envolver com mulher de família, dá mais encrenca que mulher da vida". Sábias palavras, pensava ele. Quando no bar, puxava conversa com seus amigos de copo, a decisão de se casar parecia-lhe remota. Sempre, eles reagiam com gozação: "Olha só, o cara pirou de vez!" E, todo o resto era afogado durante o revezamento dos copos de cerveja. Um verdadeiro balé etílico. Protótipo de corsário. Bravo e altivo diante do mar. Corajoso diante das tempestades. Ninguém podia imaginar que ele portava a covardia de enfrentar o pai daquela que um dia dividiria sua existência. Aturdido com a possibilidade de levar um não pela cara, arquitetava um jeito de convencer o camarada, das suas intenções, sabia que iria fuzilar de ódio, quando soubesse que sua princesinha, criada com tanto esmero, estava grávida invejável. Aquele traste não existia mais, agora dava lugar a um novo homem. Esforçado, caseiro... Um primor.

O dia do casório chegou. De véspera foi abordado pelos antigos colegas para uma farrenta despedida de solteiro. Mal-humorado, saiu com a turma nas costas. Já era hora. O terno passado repousava em cima da cama de tarimba. E ele, ansioso e depressivo, estava desassossegado. Era um calor, um frio, um incômodo a percorrer-lhe o corpo como se faltasse algo. Formigava-lhe as pernas e os braços. "Enfrentar aquele povo na igreja é de sufocar!" E se tremesse? E se tropeçasse nos próprios pés? E se... Jogou-se na cama desanimado. Num soslaio, seu olhar aportou atrás da porta onde um reluzente brilho lhe era peculiar. Estava lá a "marvada". A "levanta ânimo". O "elixir da coragem". Tamborilou seus dedos no varão da cama, e chegou a conclusão que somente um gole não ia lhe fazer mal. Era dia de festa mesmo. Agarrou a garrafa pelo pescoço, arrancou a rolha com os dentes, pregou um gole. Sentiu o peito estorricar. Cuspiu de lado para dar sorte, lambeu os lábios saboreando o que sobrou.

Vestiu a béca nupcial. Enterrou nos pés os sapatos lustrados com sumo de hibisco. Passou fuligem de lamparina no bigode e sobrancelhas para aparentar seriedade. Engomou os cabelos com brilhantina e acertou-o com seu pente desdentado. Olhou no espelho, ajeitou o colarinho. Deu uma chupadinha nos dentes para retirar possíveis detritos. Rebolou, gesticulou, esfregou as mãos como quem diz: "É hoje!"

Estava pronto. Lindão! Quando saia, não conseguiu, voltou. Alguma coisa ainda lhe prendia ali. Não resistiu, apossou-se da garrafa de cachaça novamente. Apertou-a contra o peito. Cheirou-a extasiado. Depois bebeu, bebeu, bebeu... até a última gota. Saciado jogou a garrafa vazia num canto e xingou-a dos piores nomes. Saiu apressado como se cometera um crime.

A igreja agora era sua única meta. Logo os indícios da embriaguez começavam a marcar presença. Suas pernas entortavam a cada passo. Divergentes, as ruas indicavam para todos os lados. E agora? Escolheu uma, logo a que findava numa vala de esgoto. Resolveu correr. Imaginou que voava e não viu a tal vala, tropeçou e caiu dentro dela. Entrou num mundo de total laisser-aller.

Quanto tempo ficou ali, não sabia. Em meio a fedentina abriu os olhos e deu com o ex-futuro que berrava mais que um engenho velho, reforçado por todos os milicos que conseguiu achar.

- Prendam esse vagabundo! Esse desaforado! Destruidor da moral e dos bons costumes. Esse pau d’água. Que destile na cadeia a vergonha que me fez passar.

Em volta da vala, sua turma festejava a volta do pródigo boêmio. Entre brados e pragas, o enlameado noivo beberrão foi atirado impiedosamente dentro do camburão da polícia.

Desgovernado e violento, o preso conseguiu abrir a porta da viatura e saiu discursando como um exigente e corajoso etílico herói em busca da sua recompensa:

- Não quero ir de "tamborão" (entre babas) só vô de "táctico móvel".


Nota do Editor: Fátima Aparecida Carlos de Souza nasceu em Ubatuba, no bairro do Itaguá. Em tempos recentes foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre "os causos" de Ubatuba. Escreve crônica, poesias e trabalhou com textos de teatro com adolescentes.
PUBLICIDADE
ÚLTIMAS PUBLICAÇÕES SOBRE "CRÔNICAS"Índice das publicações sobre "CRÔNICAS"
31/12/2022 - 07h23 Enfim, `Arteado´!
30/12/2022 - 05h37 É pracabá
29/12/2022 - 06h33 Onde nascem os meus monstros
28/12/2022 - 06h39 Um Natal adulto
27/12/2022 - 07h36 Holy Night
26/12/2022 - 07h44 A vitória da Argentina
· FALE CONOSCO · ANUNCIE AQUI · TERMOS DE USO ·
Copyright © 1998-2026, UbaWeb. Direitos Reservados.