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Opinião
21/09/2004 - 18h11
Notas sobre o individualismo
Dartagnan da Silva Zanela
 
"É mais fácil lutar por princípios do que viver por eles". (Alfred Adler)

É a nossa sociedade uma sociedade individualista? Seria o individualismo a causa de boa parte dos males de nossa sociedade? Provavelmente se proferirmos tais interrogações a um transeunte distraído ele mais do que de imediato irá responder que sim e, se direcionarmos essas mesmas a um e outro, douto de nossa sociedade o mesmo nos darão resposta similar. Mas, até que ponto isso é de fato verdade?

Primeiramente, entendamos o que seria o dito individualismo e sua relação com o dito egoísmo. Palavras essas extremamente carregadas de significados negativos. Basta uma pessoa chamá-lo de "individualista" ou "egoísta" em público que logo a sua imagem se verá coberta de dolo. Elas, as palavras, perderam seu significado original a muito devido a infecção coletivista que a humanidade vem sofrendo desde o século XIX e por isso passaram a ser mais cacoetes mentais para usos erísticos, falaciosos, do que o sentido de um conceito que venha a remeter a algum fenômeno relativo a existência humana.

Para tirar a dúvida, quanto alguém lhe fizer uso destes adjetivos para recriminar alguma ação sua, lhe pergunte ao seu interlocutor o que ele entende por egoísmo e individualismo. Provavelmente terá um embromex no capricho na forma de uma possível explicação como resposta.

Bem, deixando essa gente ignóbil de lado, vamos ao que nos interessa neste libelo. Primeiramente, o que seria o egoísmo? Seria um comportamento ético em que se coloca como primeira preocupação o próprio eu, em oposição ao altruísmo, a doação gratuita pelo bem de outrem sem se preocupar com um possível benefício que viesse a retornar para si.

Por sua deixa, individualismo seria, segundo a tradição renascentista e mesmo Cristã, a visão do ser humano enquanto uma criatura singular, única e, como tal, essa teria em si um valor inalienável. O oposto deste, seria o coletivismo, fortemente presente nas doutrinas gnósticas medievais e com brutal intensidade nas doutrinas políticas paridas no século XIX e sevadas no correr de toda centúria passada, onde a figura singular do indivíduo se apaga dando lugar a uma entidade coletiva onde todo aquele que não faz parte desta é tido como um anti-ser humano, como um não-ser.

Pois bem, mas, a massa ignara costuma associar automaticamente como em um cacoete mental individualismo ao egoísmo e coletivismo ao altruísmo o que, passa a parecer um grande engodo quando passamos a voltar as nossas vistas para a vida como ela é. Por exemplo: os movimentos totalitários, são coletivistas por natureza, porém nem um pouco altruístas. Mas os comunistas não querem acabar com a miséria do mundo? Claro, desde que seja a sua maneira e desde que a burocracia do partido esteja à frente para decidir quem fica com o que. Auxiliam o próximo, desde que passe a ser parte de seu grupo e lhes apóiem integralmente.

Do mesmo modo, porém em uma conotação mais vulgar está a nossa classe política que adora portar-se de maneira supostamente "altruísta" auxiliando as mazelas, desde que, obviamente, o infeliz vote nele. Em outras palavras: em ambos os casos, temos egoísmo disfarçado de altruísmo e nada mais.

Por sua deixa, muitas vezes temos individualistas com profunda preocupação com o seu próximo. Mas não para que eles se filiem em seu partido, se converta para o seu credo religioso ou simplesmente para que votem nele, mas sim, tão só pelo fato de estes serem seres humanos e estarem necessitando de uma mão, humana, que o ajude a levantar e caminhar com suas próprias pernas. Exemplos desta postura temos na figura de uma Sta. Madre Teresa de Calcutá, Alexandre Soljenítsin, os integrantes da Cruz Vermelha e inúmeros anônimos que portam-se de maneira altruísta não para aparecer na mídia, mas apenas auxiliarem uma pessoa que seja a reencontrar-se com sua dignidade.

Como também, nem sempre uma atitude egoísta seja em si dolosa. Exemplo disso é simples: se você abre uma pequena empresa ou comércio e se for bem sucedido acabará por gerar alguns empregos diretos e indiretos. Porém, isso ocorre, não porque o elemento foi generoso. Ele foi egoísta, estava pensando em aumentar os seus lucros e, como conseqüência, acabou por beneficiar inúmeras pessoas. Ou então aquela patricinha que se desfaz de seu guarda-roupa. Ela não faz isso por altruísmo, mas para comprar peças novas que estejam na moda e nada mais. Mas, nessa atitude egoísta, ela auxiliou muita gente, ou não?

Do mesmo modo, muitas atitudes altruístas acabam por prejudicar mais as pessoas que supostamente pretendia ajudar. Exemplo disso é nossa classe política que, sob a desculpa estapafúrdia de auxiliar os mais necessitados, onera a sociedade com uma carga tributária mastodôntica para assim aumentar os programas supostamente sociais. Com essa atitude, acabam eles retirando dinheiro do setor produtivo para empregar parasitas improdutivos (auxiliares legislativos, ministérios de fachada e tutti quanti) e criar programas assistencialistas que reduz a dignidade humana a uma indigência vergonhosa.

Em decorrência disso, ao invés de a miséria diminuir, ela aumenta, visto que se o setor produtivo teve a sua renda vilipendiada, esse automaticamente demitirá e diminuirá a sua produção, pois a sociedade toda acabou por ter a sua renda reduzida em nome de um suposto bem coletivo.

Por isso, tomemos cuidado com concepções prontas e acabadas, tomemos cuidado com os discursos com uma forte carga emotiva, pois eles podem até ser bonitinhos, cheios de boa intenção, todavia, no dia a dia, na maioria das vezes, o que rege os atos humanos, não são essas equações prontas de paquidermes letrados, mas sim, a lógica da vida, apreendida e entendida por cada ser humano vivente.


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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