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Campanha tem início hoje, 20 de setembro. Iniciativa visa melhorar a qualidade de vida do deficiente auditivo e derrubar os preconceitos que envolvem o problema.
Mais de 15 milhões de brasileiros têm problemas de audição, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. O que poderia ser um problema simples de ser resolvido - uma vez que a tecnologia atual já proporciona uso de aparelhos quase imperceptíveis - ganha contornos de epidemia. Apenas 40% dos afetados reconhecem a doença. A falta de informação e o preconceito fazem com que a maioria demore, em média, seis anos para tomar uma providência. Preocupada com esses índices, a Academia Brasileira de Otologia (ABO) lança a Campanha Nacional da Audição. A iniciativa, que conta com o apoio de empresas do setor de Audiologia e da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, terá início em 20 de setembro, e promoverá ações de conscientização por todos o País. O objetivo é desmistificar alguns tabus que envolvem a deficiência auditiva e melhorar a qualidade de vida de quem sofre com o problema. Especialistas são unânimes em afirmar que é preciso acabar com o preconceito que rodeia os problemas auditivos. Reconhecem que audição é ponto de equilíbrio e ponte para uma vida social. Pesquisas informais constataram que a maior parte dos surdos preferia ser cega. A explicação dada por quem estuda o assunto é que a surdez causa mais solidão do que a cegueira. "O maior dilema do surdo acontece em casa. Com o tempo, quem tem problemas deixa de freqüentar a mesa com a família e a sala de televisão. A criança fecha a janela do conhecimento e se isola. A maior parte da sociedade tem dó do cego e raiva do surdo" explica Dr Luiz Carlos Alves de Sousa, diretor da Academia Brasileira de Otologia e coordenador nacional da campanha. "Quando identificado o problema, e indicado o uso de aparelho auditivo, o paciente se sente punido por isto. Infelizmente, este preconceito está entre as maiores dificuldades na reabilitação da perda auditiva. Precisamos mudar essa imagem. O aparelho, muitas vezes, é a solução ideal inclusive para outros problemas relacionados à deficiência auditiva, tais como a dispensa profissional", como observa o presidente da instituição, Sady Selaimen da Costa. Surdez na 3ª idade - um risco para quem tem mais de 65 anos O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. Trabalhos recentes demonstram que a deficiência auditiva acomete de alguma forma cerca de 70% dos idosos (pelo menos 10 milhões de pessoas em nosso país), tratando-se de questão de saúde pública com necessidades específicas quanto à reabilitação auditiva. A perda de audição é a segunda inabilidade física mais comum nos EUA, logo atrás da dor lombar. Aproximadamente 10% da população dos EUA têm algum grau de perda de audição, incluindo um terço dos americanos acima de 65 anos de idade. "A surdez no idoso constitui-se em um dos mais importantes fatores de desagregação social. De todas as privações sensoriais, a perda auditiva é a que produz efeito mais devastador no processo de comunicação do idoso, sem contar que muitas vezes a deficiência auditiva pode ser acompanhada de um zumbido que compromete ainda mais o bem estar daquele indivíduo", explica Dr Sady Selaimen da Costa, presidente da Academia Brasileira de Otologia. Com a idade avançada, a pessoa começa a apresentar um processo natural de envelhecimento de seus órgãos, incluindo o ouvido, o nervo auditivo e as vias auditivas no sistema nervoso central. A deficiência auditiva começa, via de regra, a ficar comprometedora após os 65 anos de idade. A perda auditiva decorrente deste quadro é conhecida como Presbiacusia. "Em alguns indivíduos, agentes agravantes como a exposição a ruídos, diabetes, uso de medicação tóxica para os ouvidos e a herança genética, a diminuição da acuidade auditiva na terceira idade torna-se extremamente comprometedora no que se refere a sua qualidade de vida", alerta o médico. Presbiacusia - desafio é vencer o preconceito A presbiacusia é, portanto o envelhecimento natural do ouvido humano simplesmente como somatório de alterações degenerativas de todo o aparelho auditivo. Um problema que atinge diretamente as freqüências altas (os sons agudos), o que afeta, de modo significativo a compreensão da fala. A surdez pode se tornar extremamente incapacitante, muitas vezes, como causa de doenças otorrinolaringológicas específicas, evoluindo para graus mais avançados, ajudando a isolar do ambiente o doente que já possui outras limitações físicas. "Assim como há o envelhecimento da visão, e a pessoa passa a ver menos, com a idade ela também passa a ouvir menos. E como é natural usarmos óculos para poder amplificar as imagens, também deveríamos usar os aparelhos de amplificação sonora (AAS), também chamados de próteses auditivas, ou equipamentos auxiliares para a audição sem nenhum preconceito, como forma de se minimizar os efeitos negativos da deficiência auditiva que tanto aflige as pessoas", afirma Dr Luis Carlos Alves de Sousa, coordenador da Campanha Nacional da Audição. Mas, segundo o especialista, uma importante barreira social precisa ser derrubada definitivamente, para melhorar a qualidade de vida do deficiente auditivo. "Há um preconceito muito grande em relação ao uso dos aparelhos de audição e falta de informação sobre os avanços tecnológicos da área. As pessoas têm que estar conscientes do fato de que o uso do aparelho não diminui ninguém. A audição é muito importante nas nossas relações, não só familiares, mas sociais e até laborativas. A perda da audição muda o perfil psicológico do indivíduo" adverte o otorrinolaringologista. De todas as privações sensoriais que afetam o idoso, a incapacidade de comunicar-se com os outros devido à perda auditiva pode ser uma das conseqüências mais frustrantes, produzindo um impacto profundo e devastador em sua qualidade de vida. "Idosos portadores de presbiacusia experimentam uma diminuição da sensibilidade auditiva e uma redução na inteligibilidade da fala, o que vem a comprometer seriamente o seu processo de comunicação verbal. A perda auditiva em altas freqüências (agudos) torna a percepção das consoantes muito difícil, especialmente quando a comunicação ocorre em ambientes ruidosos. Freqüentemente, respostas inadequadas de indivíduos idosos presbiacúsicos geram uma imagem de senilidade, a qual, pode não condizer com a realidade. A queixa típica destes indivíduos é a de ouvirem, mas não entenderem o que lhes é dito.", explica Dr Luis Carlos. Segundo o especialista, é muito comum aos familiares descreverem o idoso portador de deficiência auditiva como confuso, desorientado, distraído, não comunicativo, não colaborador, zangado, velho e, injustamente, senil. "O aumento da pressão auto-imposta para ser bem sucedido na compreensão da mensagem gera ansiedade e aumenta a probabilidade de falhar nesta tarefa. A ansiedade leva à frustração e a frustração leva à falha; a falha, por sua vez leva à raiva e, finalmente, a raiva leva ao afastamento da situação de comunicação. O resultado é o isolamento e a segregação" finaliza o médico. Podemos resumir as implicações da deficiência auditiva no idoso, destacando: · Redução na percepção da fala em várias situações e ambientes acústicos. Piora em ambientes ruidosos. Muitas vezes está associado um zumbido o que piora o problema. · O idoso muitas vezes ouve o que a pessoa está falando, mas não entende. · Alterações psicológicas: depressão, embaraço, frustração, raiva e medo, causados por incapacidade pessoal de comunicar-se com os outros. · Isolamento social: A interação com família, amigos e comunidade fica seriamente afetada. · Incapacidade auditiva: igrejas, teatro, cinema, rádio e TV. · Intolerância (irritação) a sons de moderada à alta intensidade (principalmente os agudos). Se a pessoa fala baixo o idoso não ouve se ela grita o incomoda. · Problemas de alerta e defesa: incapacidade para ouvir pessoas e veículos aproximando-se, panelas fervendo, alarmes, telefone, campainha da porta, anúncios de emergências em rádio e TV. Algumas dicas ajudam os familiares e amigos do deficiente auditivo a contornar o problema: 1) Falar pausadamente e olhando de frente para a pessoa com dificuldade auditiva. 2) Falar pouco mais alto, SEM gritar 3) Caso a pessoa não compreenda bem, repetir o que foi dito empregando algumas palavras diferentes para aumentar a chance de compreensão 4) Não falar gritando de outros aposentos da casa 5) Incentive uma avaliação médica do problema, e, se houver indicação, o uso de aparelhos auditivos 6) Incentive o uso de fones de ouvido para ouvir melhor a televisão e aparelhos de som 7) Incentive a instalação de alarmes luminosos para a campainha da casa e do telefone.
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