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Aquela imagem teimava em reinar sobre sua aparência. Você se olhava, mas não se via. Sentia-se acordado. Pela primeira vez, seu olhar estava além de si mesmo. Parecia um sonho sem sono. Olhava, mas não se via. E no fundo da banheira, uma barata reinava solene sobre o branco seco de marfim. Você sabia que aquela imagem era seu fim. De repente, uma figura azul apareceu em primeiro plano. De início disforme, depois você percebeu que era seu filho. Ele tinha seu rosto. Mas, sabia que não era você. Talvez ele fosse o objeto e você a imagem. Talvez quisesse que só ele existisse naquele instante. Crescido, feito homem. Talvez! Seus olhares se encontraram e você olhou para o chão. Ao fundo, imagens distorcidas começavam a adquirir formas. Eram suas verdades. Você não conseguia compreender como aquilo podia acontecer. Verdades não existiam. Eram apenas conceitos, credos, histórias. Apenas... suas verdades. Você se sentia estranho. Sempre acreditara que se a história da sua vida passasse à sua frente, como num filme, é porque tinha morrido. Mas não estava morto. Sabia disso. Sentia-se vivo! Num instante, o espelho refletiu seu íntimo. Viu-se poderoso. Estava discursando. Era um político rico, respeitado, cheio de propriedades. E você sabia que nada valiam. Seus filhos seriam alvos das ganâncias alheias. Mas não conseguia se livrar das escrituras. Elas traziam a força do ter sobre o crer. Sentiu-se tolo, então! A barata chamou sua atenção: ela estava vindo em sua direção. E você sempre tivera medo de baratas. Olhou novamente para o espelho. Agora se viu santo. Estava rezando. Aos seus pés várias pessoas com mãos espalmadas miravam uma figura crucificada. Disparavam olhares tênues, esperançosos. E você sabia que o preço tinha sido caro demais. Mas você não conseguia se livrar dos desejos carnais. Eles traziam a força do querer sobre o inocente ser. Sentiu-se hipócrita, então! Olhou novamente para a barata. Ela estava mais perto. Pensou em matá-la, como fizera tantas vezes com seus sonhos. Uma mão emerge do espelho e toca seu rosto. O dedo em riste. Você estava denunciando. Era um jornalista famoso, querido por todos entre as letras. Focas o olhavam com admiração. E você finalmente teria a redenção do fato histórico. Mas não conseguia se livrar daquela amizade. Ela trouxera o emprego num momento de desespero. Sentiu-se covarde, então! Pensou em quebrar o espelho. Você se livraria daquela sombra consciente. Voltaria a dormir. Nesse momento a barata toca seu pé. Um calafrio percorre seu corpo. Você quer sair correndo. Não suporta mais. Olha para o espelho e nada vê. Você não está mais ali. Não há objeto nem imagem. Apenas o som do desespero emudece sua alma. Talvez você tenha morrido e se livrado de si mesmo. O som do chuveiro sendo ligado chama sua atenção. Você sente o prazer dos pingos d’água tocarem seu corpo. Você sente uma sensação maravilhosa de alívio. O banho o está salvando. Num repente, você compreende. Sente-se sugado num rodamoinho de morte. O ralo da banheira o engole. Ainda ouve ao longe: - Eta barata nojenta!
Nota do Editor: Douglas Mondo é advogado, escritor e presidente da Tv Japi Mais.
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