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Deus existe? O diabo existe? Esta é uma questão tão antiga e tão importante quanto o próprio surgimento da vida. Algo que intrigou, intriga e sempre intrigará o ser humano ao longo de sua própria existência. E, no trato desse polêmico tema, não importa ignorância ou conhecimento. Qualquer um de nós, do menos informado ao mais erudito ser, temos nossas certezas e incertezas quanto à veracidade do Céu e do inferno. E, até mesmo, do real poder que têm Deus e o diabo, que, é compreensível, dependem um do outro para a imagem de ambos. Um sem o outro não faz muito sentido, faltaria o dualismo do bem e do mal os situando como entes transcendentais... Mas, algumas poucas coisas são claras nesse nebuloso assunto. Qual seria, na prática, a real contribuição da crença, da fé na vida das pessoas? Este é um aspecto que se apresenta transparente, em especial nas sociedades de países que, como o Brasil, estão no bloco dos que ainda buscam o desenvolvimento. Acreditar em Deus ou no diabo faz melhor ou pior a vida das pessoas. Partindo da premissa de que Deus foi o criador de todas as coisas, e é puro amor, como poderia ele ter criado o diabo, ter permitido o aparecimento do mal? E se o mal é tão eterno e onipresente quanto o bem, podemos rapidamente concluir que o diabo é tão divino quanto Deus. Isto explica o princípio filosófico da liberdade como sendo, acima de tudo, uma necessidade teológica, que permite superar contradições desse tipo. No imaginário popular, quando alguém acerta foi ajudado por Deus. E, da mesma maneira, quando alguém erra foi "esquecido" por Deus ou, até mesmo, "tomado" pelo diabo. Ou seja, você nunca é totalmente responsável pelos seus acertos e erros que, com 50% de responsabilidade nas mãos desses Parceiros, o coloca numa acomodada situação de dependência do imponderável. O bom merece um "Graças a Deus", já o ruim fica por conta de um "Castigo merecido". Desta forma, Deus é sempre vencedor, enquanto o diabo é um eterno perdedor. E nesse debate, surge a tese do "livre-arbítrio" como uma boa justificativa para explicar o bem e o mal que são concedidos por Deus aos seus filhos na terra. Você recebe a vida, decide pelo caminho e vai ajustar contas lá no dia (ou noite) do Juízo Final. Deus dá essa liberdade. E vem a pergunta: "Mas, se ele também perdoa pecados, todos chegarão ao céu". E o diabo, mais uma vez derrotado, acabará sozinho nas tórridas paisagens do inferno. Castigado à solidão e, portanto, sem chances de se recuperar, diferentemente dos que se confessam e são redimidos - mesmo que nem sempre, de fato, arrependidos... Certo e errado são convenções terrestres, que dependem de conhecimento e entendimento das pessoas para, quem sabe, poder cumpri-las. E os ignorantes? Serão todos perdoados pelos seus erros, incondicionalmente, porque é preciso fazer justiça? No dia 19 de agosto deste ano, portanto há quase um mês, surgiram em São Paulo violentos atentados contra moradores de rua, ou sem-teto, ou ainda descamisados, como você preferir nessa farta terminologia criada para um problema que me deixa farto de indignação. Hoje, mais de uma dezena de pessoas nessas mesmas condições já foram assassinadas, em todo o país - a "tendência" se alastrou rapidamente para Bahia, Pernambuco e Minas Gerais. Moradores de rua não são eleitores, não geram riqueza, não praticam qualquer religião. Não contribuem para nada, apenas para uma imagem feia, repugnante e triste de cada cidade. Mas, antes de qualquer uma dessas (in)definições, são seres humanos supostamente criados à semelhança de Deus (embora "pobres diabos", para muitos), que têm direito à vida e, quem sabe, até mesmo à felicidade. São moradores de rua por opção ou por serem vítimas da própria realidade social - não importa, têm livre-arbítrio para ser o que desejam. Estão sendo assassinados, a cada dia, em cada canto do País, na mesma intensidade com que são feitos abortos irresponsáveis ou acontecem overdoses de droga. Quem os está mandando para o inferno ou para o Céu? Eu, você, os governos, o diabo ou Deus? Já não vejo mais o sol, faz escuro, mas ainda enxergo o futuro. A violência vai bater à sua porta... É apenas uma ameaçadora questão de tempo. Nota do Editor: Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e empresário do setor da Comunicação.
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