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A morte de mais um torcedor paulista traz de volta ao debate a interminável guerra de torcidas organizadas. Na esteira das brigas entre gangues, inocentes perdem a vida por motivos fúteis. E, imediatamente, surgem idéias - das mais estapafúrdias até algumas com certa coerência - contra a desordem. Mas, lamentavelmente, nada é colocado em prática. A extinção das torcidas organizadas, punição já aplicada contra a Mancha Verde, do Palmeiras, e a Independente, do São Paulo, demonstrou ser uma providência inútil. As duas turbas não demoraram a voltar à atividade com quase os mesmos nomes. A primeira ganhou um Alvi entre seus dois apelidos originais; e a outra, um Tricolor. Ou seja, crimes de gangues não se resolvem por decreto. É necessário adotar critérios para que verdadeiros bandidos não tomem conta de agremiações, usando-as como instrumentos de suas arruaças criminosas. Agora, surge a idéia, já utilizada na Argentina, de determinar a presença de apenas uma torcida de um time possa comparecer no estádio em clássicos. De novo, é querer atacar os efeitos sem mexer com as causas. Quem garantirá a segurança da única torcida presente ao estádio quando ela estiver na rua? Não imaginem que o aparato policial ostensivo pode resolver o problema até porque, a recente morte do torcedor sampaulino, no domingo passado, ocorreu horas depois do jogo, em uma região distante do Morumbi, quando o ônibus dos tricolores já não era acompanhado pela polícia. Diante de tantos fatos desalentadores, defendemos o uso da inteligência policial pela Secretaria de Segurança Pública contra os crimes de gangues. Um acompanhamento permanente e mais próximo nas sedes das torcidas, nos estádios e nos caminhos de ida e volta, continua necessário. Mas é essencial um controle bastante eficaz dos cadastros internos das torcidas organizadas, com investigações exaustivas sobre a vida pregressa de cada suspeito. Em vez de proibir uma das torcidas no estádio, os próprios clubes, Federação Paulista de Futebol e a mídia esportiva podem promover concursos entre as organizadas, como aconteceu, recentemente, na partida entre Palmeiras e Corinthians, quando os torcedores promoveram uma disputa à parte na arquibancada. Um veículo de comunicação adotou diferentes critérios e os dois grupos foram avaliados, com notas de 0 a 10, na empolgação, canto, comportamento, alegorias e incentivo. Em vez de irem ao estádio para brigar, as duas torcidas se envolveram em uma disputa sadia. Como os clubes brasileiros estão em crise, excluir as torcidas organizadas dos estádios não contribuirá em devolver ao futebol brasileiro o espaço que merece. Prevenir conflitos sangrentos é obrigação policial, mas investigar com inteligência os marginais infiltrados nessas agremiações é a única saída definitiva para a questão. Caso contrário, mais mortes ocorrerão e as várias gangues mergulharão no cumprimento de vinganças sangrentas. Nota do Editor: Romeu Tuma é delegado de Polícia, deputado estadual pelo PPS, ex-presidente e atual integrante da Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa de São Paulo.
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