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Opinião
25/09/2004 - 20h03
Entendendo as pesquisas em Ubatuba
Álvaro Gonçalves
 

Para que uma pesquisa seja bem avaliada, vários dados precisam ser muito bem analisados. Não apenas o resultado de intenção de voto. Infelizmente, muita gente não tem facilidade com números e não consegue, na maioria dos casos, avaliar o que eles dizem.

Uma vez, ouvi o diretor do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) dizer o seguinte: "Para provar o sabor de uma sopa, você não precisa tomar todo o caldeirão, basta uma colher, desde que os ingredientes estejam todos bem misturados. Para analisar as intenções de voto, também não precisamos pesquisar toda a população, basta que a amostragem represente bem o universo da população consultada." Claro! Se pegar uma colher onde tem uma pedra de sal, a impressão é que a sopa está salgada. Se consultar uma região em que a tendência de voto é para o candidato "X", a impressão que dá é que este candidato será eleito. Mas, em ambos os casos, a realidade é outra.

Em cidades do porte de Ubatuba, os institutos, normalmente, fazem 300 entrevistas. Em Ubatuba, constatou-se que deveriam ser feitas aproximadamente 600 para que o resultado fosse o mais íntegro possível. Isso acontece porque, em Ubatuba, temos um município com quase 100 quilômetros de extensão. Por este motivo, as tendências variam muito de região para região. É como se houvesse várias cidades em apenas um município. Por isso, a amostra tem de ser muito bem dosada e 300 entrevistas é muito pouco.

Analisando a única pesquisa que foi divulgada integralmente, selecionei alguns pontos muito interessantes. Esta pesquisa tem o intervalo de confiança de 95% e margem de 4 pontos percentuais para cima ou para baixo.

- As amostras nas regiões são proporcionais à quantidade de eleitores em cada região. A região Norte, por exemplo, segundo o IBGE, possui 4,9% da população de Ubatuba. Dos 600 entrevistados, 4,9% são da região Norte. E assim, com todas as outras regiões.

- Foram usados os mesmos critérios em relação à renda familiar, idade, sexo e escolaridade. Por exemplo, 50,7% da população (pouco mais da metade) é do sexo masculino. Das 600 entrevistas, 304 (pouco mais da metade) foram homens e 296 mulheres.

- A avaliação da administração municipal é um retumbante fiasco, de acordo com os entrevistados. A saúde está péssima para 48% da população; o saneamento, péssimo para 40,3%; geração de empregos, então, nem se fala: péssimo para 53,8%; e turismo, nossa principal fonte de renda, está péssimo para 35% e ruim para outros 24,5%. Ainda dizem que ’Ubatuba está dando certo’!

- O Alckmin (governador) tem muito mais aprovação que o Lula (presidente). Mas o pessoal da Estufa gosta muito menos do Alckmin que nas outras regiões. Será algum problema com o PSDB?

- Falando em aprovação, lembramos de rejeição, sua antítese. Acompanhando a tendência, o Paulo tem assustadores 43,5% de reprovação (quase 1 para cada 2 entrevistados); o Tuzino, 32,8% (quase 1 para cada 3); e o Eduardo, 9,7% (menos de 1 para cada 10!). O Paulo tem maior rejeição no Sul (51%) e o Tuzino tem maior rejeição no Centro (42,7%). A primeira pesquisa do Tuzino entrevistou apenas 40 pessoas no Centro, em um universo de 360 entrevistas. Ou seja, o Centro que representa quase 15% da população, teve apenas 10% de entrevistas. Coincidência? Ou será que o Centro é mais... "salgado"?

- As mulheres repudiam mais o Paulo e o Pedro e repudiam menos o Eduardo. Deve ser pela carinha bonita! Tanto que ele tem o voto de 25% das mulheres, contra 18,9% do Paulo e 19,6% do Tuzino.

- Ainda há 33,3% de indecisos e 21,7% ainda podem mudar de idéia. Tuzino e Eduardo receberiam a maior parte dos votos dos indecisos - 22,4% e 19,7% respectivamente. O Paulo receberia apenas 13%. Isto indica uma tendência de crescimento para o Tuzino e para o Eduardo nos últimos dias de campanha.

- No item escolaridade, há a maior defasagem da pesquisa: 42,9% dos que têm curso superior e 29,9% dos que têm ensino médio votam no Eduardo. O Tuzino tem 17,1% dos graduados e 19,4% dos medianos. O Paulo (24,7%) e o Pedro (22,8%) disputam voto a voto a escolha dos primários, enquanto o Eduardo tem 16,2% das intenções destes. Será efeito do glamour dos "showmícios" e dos foguetórios?

Pesquisa completa é assim: você pode obter muitas outras informações, além simplesmente da intenção de votos. Gostaria que TODAS as pesquisas fossem abertas e disponíveis para uma análise mais profunda. Assim, poderíamos ter mais certeza do que elas querem dizer. Aliás, poderíamos dar algum crédito a elas. Quando só se divulga o que interessa, fica difícil acreditar em sua veracidade. Infelizmente.

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