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De quinze em quinze minutos passa diante de minha casa o carro de som de um candidato a vereador: um fusca amarelo carcomido pela ferrugem que carrega um sistema de som caseiro, que emite um jingle barato. Apesar da baixa qualidade, é difícil esquecer a música de fundo e o mantra do candidato: "Ão, ão, ão, vote no Tião". Nada disso inspiraria um voto: o carro carcomido, o som estridente e rouco, o jingle irritante e permanente. Apesar disso, tenho visto em algumas casas a faixa do tal candidato - sinal de que há eleitores decididos a lhe dar um voto. Talvez o Tião seja eleito. Há alguns candidatos que escolhem estratégias ainda mais comuns. Espalham panfletos pela cidade, agitam bandeirolas nas ruas mais movimentadas, enchem os postes de anúncios. Pense com calma e responda: você votaria num candidato só porque ele espalhou banners pela cidade, por causa de um jingle engraçadinho, porque você recebeu um panfleto na rua? Ainda que você tenha respondido "É claro que não", sua resposta contraria a lógica seguida pela maioria dos marqueteiros - a lógica da melancia no pescoço. Funciona mais ou menos desta forma: se você conseguir aparecer bastante, se seu número for memorizado com facilidade e estiver vivo na memória do eleitor no dia da eleição, provavelmente você será eleito. Nada mais é necessário. Eu, como eleitor, sinto um certo desconforto ao admitir que o jingle do Tião ficou na minha cabeça. O número dele também. Mas graças ao mínimo discernimento que meu estudo me permitiu, vejo que a publicidade fácil e ruim são razões fortes para eu não votar nele. Ao contrário, há alguns anos decidi votar apenas em candidatos que dão o exemplo, não em candidatos que fazem propaganda, muito menos naqueles que ofendem minha inteligência com bandeiras, banners e slogans lamentáveis. É claro que isso tem reduzido drasticamente minhas opções de voto e tem feito pensar nas palavras que Henry Thoreau, um dos mais importantes filósofos norte-americanos, escreveu em seu famoso ensaio "Desobediência Civil". Depois delas, nada mais é necessário dizer sobre as eleições: "Toda a votação é um tipo de jogo com uma leve coloração moral, onde se brinca com o certo e o errado sobre questões morais; e é claro que há apostas neste jogo. O caráter dos eleitores não entra nas avaliações. Proclamo o meu voto de acordo com meu critério moral; mas não tenho um interesse vital de que o certo saia vitorioso. Estou disposto a deixar essa decisão para a maioria. O compromisso de votar, desta forma, nunca vai mais longe do que as conveniências. Nem mesmo o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo. É apenas uma forma de expressar publicamente o meu anêmico desejo de que o certo venha a prevalecer. Um homem sábio não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da maioria. Há escassa virtude nas ações de massa dos homens."
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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