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Ao ver uma erva daninha, arranque-a. Suhara Koun Osho
Ontem vi uma entrevista na TV com um dos candidatos à prefeito do litoral paulista. Por respeito ao programa e seus âncoras, prometo não fornecer nomes. Contudo, a ética me obrigaria a denunciar o farsante que foi entrevistado, porque ele mal conseguia articular frases e a maior parte de seu vocabulário era formada por interjeições e onomatopéias. Por definição, qualquer pessoa que se candidata a um cargo eletivo corre o risco de ser eleita. Existe, portanto, uma probabilidade de um analfabeto funcional ocupar um cargo importante nesta região e ser pago com dinheiro público por isso. A possibilidade é pequena, mas suficiente para lançar nuvens negras sobre o sistema político brasileiro - e para me assustar. Ela assinala a vitória da ignorância e a distância crescente entre política e sabedoria. Ao contrário do que acontecia na Grécia Antiga, a política atual não tem qualquer relação com estudo, inteligência e sabedoria. Infelizmente, ela está mais para Maquiavel e Napoleão do que para Aristóteles e Sêneca (aliás, algum candidato sabe quem foram estas pessoas?). O panorama seria menos assustador se o vazio da inteligência fosse preenchido pela ação. Para que servem os políticos? Como se justificam os vultosos salários que lhes são pagos? Eu, como eleitor, fico tranqüilo quando vejo mudanças positivas na cidade em que vivo, quando abro o Diário Oficial do Município e vejo mais ações do que nomeações, quando vejo que os vereadores não estão preocupados com nomes de ruas ou honrarias a cidadãos de antecedentes obscuros. A filosofia zen, uma das mais antigas do Oriente, ensina que a ação é mais importante do que o pensamento. A frase que abre este artigo tem um significado muito simples e profundo: fazer o que deve ser feito sem nenhum intervalo entre pensamento e ação. É o que ocorre quando encostamos em algo quente: não há intervalo entre a percepção de que aquilo queima e a reação física para evitar a queimadura. Apesar disso, o zen não implica automatismo, mas sabedoria e intuição profundas. A perfeição nas ações é conseqüência natural do estudo perseverante. A sabedoria só tem sentido quando se traduz em boas ações. E estas precisam ser espontâneas, mas não acidentais. A filosofia zen ofereceu respostas muito pragmáticas às minhas aflições diante do candidato semi-analfabeto. Afinal, as eleições passam, a vida continua. Seria muito pouco zen submeter as próprias ações aos discursos e ditames políticos. Zen mesmo é ir às urnas sem se embriagar com a festa da democracia, permanecer sóbrio para continuar seu trabalho diligente no dia seguinte e oferecer à cidade aquilo que você espera de seu candidato. Em outras palavras, fazer exatamente o oposto do que muitos políticos fazem desde o primeiro dia de seus mandatos: estes, quando vêem uma erva daninha, sobem à tribuna para discursar e alegam que a planta cresce por razões políticas.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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