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Quando os jornalistas brasileiros acertam o foco e conseguem encaminhar à discussão no Congresso Nacional o projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), os patrões e patronais descarregam sobre a idéia um bombardeio maior que o de George Bush sobre Saddam Hussein. Cheios de ódio, logo decretam que o futuro do CFJ é o arquivo profundo do Congresso. Ouvir o outro lado? Nem pensar. Os jornalões - embora alguns patronais insistam em dizer o contrário - fecharam suas páginas para qualquer opinião a favor do Conselho. Só vale a opinião deles. E depois de decretarem a morte do CFJ, os patrões e patronais trataram logo de abrir outra frente de discussão para tentar dividir mais ainda a categoria. Decretaram também que assessor de imprensa não é jornalista. Mesmo que seja profissionalmente competente e ético. Ainda bem que existem alguns acadêmicos por aí que balançam o pensamento dos donos da verdade com afirmações incômodas, como "a realidade dos jornais mudou, hoje o jornalista é um empregado de grandes conglomerados e se não andar na linha é imediatamente punido com cartão vermelho e expulso do jogo, até quando se espevita e passa a ser mais realista que o rei". Na verdade, este novo mote levantado pelos patrões e patronais - em nome da ética que eles nunca processaram em suas atividades - põe a nu mais uma forte razão para a criação imediata do Conselho. A cada dia os fatos vêm mostrando, por si, esta necessidade urgente. Primeiro, foi a questão do ex-deputado Ibsen Pinheiro, com um jornalista confessando, em clima de festa, um crime de imprensa dez anos depois, e ficando por isso mesmo, com todos os envolvidos - incluindo duas revistas de circulação nacional - praticamente comemorando o fato. Como se fosse normal. Só faltou dar uma medalha para o autor do crime. Ibsen, por sua vez e suas razões, pediu pelo amor de Deus para que não se toque mais no assunto. Na seqüência, o correspondente do New York Times - aquele que não precisa de fatos para escrever seus textos, pois ele mesmo os inventa, à sua maneira, e depois comenta-os, omitindo as opiniões contrárias às suas teses, imiscuindo-se, inclusive, em questões que só aos brasileiros dizem respeito - mente que a criação do CFJ é uma iniciativa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e também fica por isso mesmo. Depois, vem a história do ministro da Cultura, Gilberto Gil, que nega, em cadeia nacional, ter dito o que disse, ou que não disse da mesma maneira que disseram que ele disse. Ou não. Mas depois de uma leitura atenta do que ele disse, o leitor fica cheio de dúvidas se ele disse ou não disse. Mas a primeira coisa que o comando maior da comunicação social do Planalto fez foi caçar culpados. Houve um erro. E o que fez a tucanada que até hoje está pousada nos galhos da grande árvore da Comunicação Social do Planalto? Pegou o celular e ligou aos setoristas para entregar um nome. Como se houvesse apenas um responsável pela falha, quando houve, no mínimo, meia dúzia de olhos sobre a matéria. Os tucanos do Palácio do Planalto só não sabiam que a dona do nome entregue é uma pessoa e jornalista digna, que, logo ao saber dos problemas, colocou o cargo à disposição, assumindo sua parte no erro. Os outros envolvidos, como bons tucanos, encolheram-se, calaram o bico, esconderam-se sob as suas penas coloridas e salvaram seus empregos. E a ética? Que se lixe a ética. Em parte, a Presidência da República é a própria culpada pelos últimos acontecimentos na área de Comunicação Social do Planalto, pois ao assumir, a primeira atitude que tomou foi convidar todos os profissionais ligados ao governo de Fernando Henrique Cardoso a continuar em seus cargos. Apenas dois profissionais, envergonhados, entregaram seus cargos. O resto da tucanada está até hoje no Palácio e nos ministérios. Uns até licenciaram-se, recentemente, para fazer campanhas de tucanos em alguns estados. Se perderem, poderão voltar aos seus ninhos, tranqüilamente, pois a orientação da comunicação social do Palácio do Planalto não é ideológica. A atitude correta da nova chefia, quando Lula assumiu, seria pedir que todos os CCs da área de Comunicação Social colocassem seus cargos à disposição. O erro maior foi cometido, portanto, no primeiro dia da atual administração federal. Se houvesse um Conselho, todos estes seriam casos exemplares para serem examinados. Ou não. Mas, nós, jornalistas, disporíamos de um fórum adequado para questionar. Nota do Editor: Antonio Oliveira é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS e ex-conselheiro da Fenaj.
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