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Para a maioria das pessoas, as eleições são o momento máximo da democracia brasileira. Para mim, qualquer democracia que se baseie num breve frenesi cívico a cada dois anos não é digna desse nome. Vejamos. A democracia brasileira é muito nova. Antes dos governos militares, praticamente não houve eleições diretas e livres. Depois deles, vivemos apenas duas décadas de democracia plena. É natural, pois, que este período seja marcado mais por um idealismo eufórico e juvenil do que por uma consciência lúcida e madura. Estas qualidades também definem o eleitor brasileiro, naturalmente crédulo, ingênuo e subestimado. Ele crê que um ou dois dias nas urnas de fato determinarão tudo aquilo que lhe acontecerá nos próximos quatro anos. Ele aposta suas fichas num ilustre desconhecido. Ele valoriza mais seu voto do que si próprio. E assim se faz uma democracia rasteira, em que o cidadão se esforça para crer nas maravilhas do voto universal e o político finge que representa seus eleitores. O que torna um político diferente de mim ou de você é sua capacidade de transformar popularidade em poder (ou vice-versa). É o que fazemos todos os dias, em nossas relações profissionais e familiares. O político apenas a formaliza diante dos eleitores e do juiz eleitoral. O político não é necessariamente mais nobre, inteligente ou capaz do que nós, o que não impede que ele seja celebrado como salvador da pátria logo que uma eleição termina. A maioria dos políticos, contudo, possui um único poder: o de tornar invisível sua incapacidade de corresponder às expectativas de seus eleitores. Política é falsidade. As verdades humanas são frágeis e mortiças. A política aproveita-se deste fato, ignorando ou subjugando verdades fundamentais. E eis que surge a festa da democracia, ou a democracia de mentirinha, para encher os olhos daqueles que ainda se emocionam com o zé-ninguém que caminha descalço quilômetros de estradas de terra para votar em alguém indicado por seu compadre, sujeito estudado e que sabe das coisas. Política também é memória curta. Políticos e eleitores são acometidos por amnésia tão logo as eleições terminam. Estes esquecem em quem votaram; aqueles esquecem por que foram eleitos. Curiosamente, tudo fica em paz ao longo dos quatro anos de mandato, já que a maioria dos gabinetes tem fechamento hermético. Como não pretendo fazer apologia do voto em branco, ofereço três idéias ao leitor que pacientemente chegou até aqui: 1) anote e guarde em lugar visível os nomes de seus candidatos, diga-lhes que votou neles e esforce-se para personalizar seu voto; 2) perceba que essa personalização é menos importante do que aquela que o aproxima de seu vizinho ou de seu médico; ela significa apenas que o político deve ser movido pela vontade do eleitor, não o contrário; 3) se o voto, para os idealistas, é uma forma de melhorar o mundo, você deve buscar formas pessoais, não-eleitorais e justas de fazer a mesma coisa.
Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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