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O céu mantinha uma limpidez imaculada, um azul puríssimo e toda a cidade de Ubatuba sofria com aquela terrível estiagem, principalmente os moradores da praia das Toninhas, que reclamavam que lá era pior, porque a areia da praia fervia os pés. Não havia chuva e nem peixe. Enquanto os crédulos rezavam aguardando um milagre, Júlio e Camilo, que eram amigos inseparáveis, só observavam o comportamento estranho do pescador Marino, que caminhava pela costeira com seus apetrechos de pesca. No final do dia, regressava com o balaio transbordando de peixes, que presenteava com generosidade a vizinhança carente. Então resolveram espioná-lo, para desvendar o mistério. Foi quando viram-no olhando o mar, cujas ondas subiam mansamente, uma a uma, beijando-lhe os pés. E dali emergiu uma encantadora mulher, toda nua, com bastante cabeleira repleta de algas e de espumas. Surpresos viram Marino correr ao seu encontro que a prendeu nos braços sem querer desgarrar-se dela. Parecia resolvido a mantê-la para sempre junto dele. Na luta que se desenvolvia, Marino introduziu-lhe dois dedos na boca e num gesto rápido, retirou a guelra que a impedia de falar. Trocaram juras de amor e Ondina, filha das Ondas, se casou com o pescador apaixonado, indo morar numa casinha de sapé na praia das Toninhas e formando, junto dele, o venturoso lar dos Marinhos.
Nota do Editor: Silmara Torres Retti é escritora e mora em Ubatuba (SP). Mantém o site www.silmararetti.prosaeverso.net.
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