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O papel dos jornalistas na construção de um novo mundo.
O jornalista é um mediador entre dois mundos. E isso não significa apenas poder, mas também humildade, aceitação, de ser apenas o que deixa passar, deixa fluir através de seu trabalho o trabalho de outros, as idéias de outros, o caráter de outros. O jornalista não é só um representante que age em nome de tantos outros, é também um intérprete que busca revelar o que acredita ser verdade e o que acredita que as pessoas querem saber. Uma profissão repleta de subjetividades. De objetivo mesmo, uma única certeza, na página do jornal: a data. A questão é que tudo passa pelos nossos olhos e em cada reportagem que fazemos, em cada texto que escrevemos, estamos inteiros ali com nossos pensamentos, nosso caráter, nossa cultura, tudo que pensamos sobre a vida, sobre o mundo, enfim, estamos inteiros com a nossa emoção. O que nos diferencia uns dos outros é justamente a emoção, são as nossas sensações, os nossos sentimentos quando olhamos um fato. Nossas idéias e pensamentos podem ser comuns, mas emoções e sensações não. É um sentir sem demonstrá-lo, aparentemente, sem passá-lo adiante. Mas ele está ali, presente na reportagem. E nisso reside a responsabilidade do jornalista. Ele tem um poder imenso nas mãos. Ele traz o que está longe do olhar dos outros para ser visto de perto. Assim ele pode trazer o que quiser. Nisso reside a ética de um jornalista. Ele tem o poder de manipular uma informação, falsear uma realidade, mas tem também o poder de convocar, de fazer alguém pensar coisas que nunca havia pensado. O jornalista é capaz de mobilizar a ação das pessoas, de plantar novos valores, novos comportamentos. E isso é um poder político. Para ser os olhos e os ouvidos de alguém, provocar os seus sentimentos, a linguagem tem de ser persuasiva, tem de convencer, não é só demonstrativa. E essa persuasão é a linguagem política. Enquanto a reflexão é a linguagem da filosofia, a persuasão é a linguagem da política. O jornalista não está lá para trabalhar sobre as verdades eternas, mas sobre os acontecimentos mundanos, é ali que ele interfere. Na Grécia antiga esses homens eram chamados de homens de compreensão, eram os políticos, aqueles que se preocupavam com a vida da polis, a cidade, com a vida cotidiana, com as formas do bem viver, com as ações humanas. Essa condição serve profundamente ao jornalista. Ele não pode prescindir de nenhuma posição que não seja ética. É um homem falando pra homens. A vida é um negócio entre homens e cada um tem o seu papel. O jornalista usa a política, como na Grécia antiga, com o poder da persuasão. É preciso convencer o outro para te ajudar. Persuasão não é enganação, não é manipulação. É o esforço de tornar o outro convencido do que você faz, para ter ali um adepto, não um subalterno. Tarefa difícil nestes tempos em que a nossa sociedade está cada vez menos disposta à reflexão. É uma sociedade com poucos pensamentos. É uma sociedade predisposta a cumprir e levar adiante o que ouve, sem refletir, sem pensar se aquilo exige de mim uma convocação. É um ouvir superficial que acolhe de imediato aquilo que está ouvindo, e depois esquece rapidamente o que ouviu e passa a esperar pela próxima notícia, nessa avidez de consumo em que vivemos. A responsabilidade do jornalista é perceber isso e cuidar das palavras, das informações que vai trazer para o público trazendo coisas que convoquem as pessoas para uma nova realidade. Por exemplo, ao dar espaço para que jovens da periferia apareçam na mídia, para mostrar o seu talento e não para dizer como é violenta a periferia das grandes cidades, uma mudança significativa está a caminho. Aquele jovem e todos os outros jovens que assistirem aquela reportagem vão perceber que eles podem estar em evidência pelas qualidades que têm, seja escrevendo, fazendo um jornal, criando uma rádio comunitária, construindo enfim alguma coisa e não pela violência do lugar em que vivem. Todo mundo quer mostrar o seu talento, o que o diferencia de todas as outras pessoas do mundo. Todos queremos mostrar o ser único que somos. E esse sentimento, na nossa sociedade de consumo, é reforçado de um jeito torto, que é a fama, a celebridade. Com o poder da celebridade o que perdemos são os valores, é a memória, a tradição, tudo que possa significar o passado. Na nossa sociedade a única coisa que vale é o futuro imediato: a próxima novela, que revelará a próxima celebridade, o próximo modelo de computador, a moda da próxima estação, o novo celular. Afinal só o que vem, só o que é novo é que pode ser consumido. Como consumir o passado? O passado não tem valor de mercado, só tem valor pra nossa humanidade e a humanidade não tem cotação possível no modelo econômico em que vivemos. Um tempo atrás, gravando para a TV Cultura o Caminhos e Parcerias, eu estive no Xingu, na tribo dos ikpeng e pedi para o velho da tribo, o contador de histórias, chamado Opoekê, me contar uma história para que eu gravasse. Ele me falou: "qual história vai querer?". Eles tem poucas histórias, umas dez ou 15, que passam, (ou melhor, passavam) de geração para geração, todos os valores que norteiam a vida de um ikpeng. Eu perguntei: qual história tem? - Tem história da onça, da criação dos ikpeng, do milho, da mosca, do trovão. - A do trovão. - História do trovão, que horas vai começar? - O senhor é quem sabe, não sei, pode ser às quatro horas. - História do trovão começa às quatro horas, passa cinco horas, passa seis horas, passa sete horas, passa oito horas, passa nove horas, dez horas acaba história do trovão. E eu percebi que a história do trovão não cabia na nossa civilização da tecnologia. Justo na nossa civilização tão carregada de memória RAM, de HDs extras. Não dava nem pra começar. Justo nós que tínhamos o poder de gravar e conservar o que quiséssemos, justo nós que aparentemente tudo podíamos, não tínhamos a única coisa necessária para aquela tradição: o tempo, o tempo real que permitisse a calma para que o aprendizado fosse possível. Os jovens, mesmo vivendo ali no Parque Indígena do Xingu, também não tinham espaço no seu tempo para aquela história. E eles, os jovens indígenas, tiveram o mesmo comportamento que eu e a minha equipe. Eu pedi que o velho contasse uma parte da história, na língua dos ikpeng e os jovens da tribo que estavam tendo aula de português e de ikpeng foram levados pelo professor para ouvir o pedaço da história. Eles, como nós, levaram um gravador, para registrar o inusitado daquele evento. Aquela língua que eles também não entendiam direito. Opoekê é o último contador de histórias daquela tribo, assim como Melobô, o último pajé. Para formar um novo pajé, dentro da tradição ikpeng, é preciso ter pelo menos cinco outros pajés, para o grande dia da transformação do menino em pajé. Um cuidaria do menino, outro do norte, outro do sul, outro do oeste, outro do leste, para que o mal não pudesse chegar de nenhuma das direções e alcançar o menino que está virando pajé. Infelizmente isso não será mais possível. Ali eu perguntei para o professor, um ikpeng de 28 anos, que é avô, o que ele fazia com a gravação e ele disse que tentava fazer com que os alunos ouvissem, mas eles não se interessavam em ouvir a história, preferiam a televisão. Para ouvir a história era preciso muito esforço, era preciso viver outro tempo, o começo do mundo e isso diante da televisão ficava impossível. Assim, a cada dia mais, quem passa os valores para os nossos jovens, não são mais os velhos, não é a tradição, mas a televisão. E que valores são esses que ela nos dá? A televisão nos ensina que é irrelevante o nosso esforço, o nosso trabalho, a nossa dedicação. Tudo virá num lance de sorte. A fortuna e a fama. A televisão nos ensina que a mentira e a verdade muitas vezes são a mesma coisa. Vale tudo. A televisão, assim como a sociedade, nos ensinam que só vale o dinheiro, só vale a próxima atração, a próxima vítima. E nós, brasileiros, que temos na televisão a praça pública perdida, o espaço para mostrar o nosso talento, o nosso destaque, tudo aquilo que nos faz ser únicos neste mundo, como somos retratados na TV? Eu viajo pelo Brasil há seis anos, atrás de histórias para o Caminhos e Parcerias, que mostra o trabalho de iniciativas, principalmente de ONGs, empresas privadas, poder público, comunidades, buscando uma melhoria na qualidade de vida de populações carentes. E esse trabalho bate de frente com uma primeira e poderosa barreira: a baixa auto-estima. As pessoas não se sentem capazes de trabalhar, de cuidar da própria vida e da vida de seus filhos, elas se sentem tão humilhadas, tão diminuídas na sua condição de ser pobre, no seu destino de ser miserável, que não se acham capazes de ser responsáveis por si mesmas. Acreditam que tudo tem que lhes ser dado. Esperam dos políticos, da mesma forma que esperam dos apresentadores dos programas de TV. Querem que tudo lhes seja dado. É uma mentalidade que começa na escravidão, passa pelo sertão e os coronéis, dura até hoje nas eleições em alguns lugares, onde o voto é acertado em troca de alguma coisa e é reforçado pela televisão em programas de auditório do tipo: vocês querem dinheiro? Me divirtam que eu dou, se submetam a mim que eu dou. Venha até aqui e divirta meu público às custas do ridículo da sua história e eu lhe darei o que você precisa. Sozinho você não será capaz. E essa humilhação que vamos assistindo vai conformando nosso pensamento. E o que é humilhação começa a soar como natural. Então não é assim que as coisas são? Quanto vale a nossa humilhação? E assim a televisão vai nos ensinando os valores desse mundo. É ela quem multiplica pelo Brasil o que é moral, como devemos agir no dia a dia. É ela quem nos dá aula de ética, sobre os valores mais intrínsecos da humanidade. Hanah Arendt nos diz que aprendemos tudo pelo exemplo, "o homem é o único ser que aprende a se tornar humano", aprendemos olhando, observando. Por isso falamos igual a nossa mãe, andamos igual ao nosso pai. Nesse sentido a televisão é o nosso grande exemplo. Tudo o que vemos um homem fazer, sabemos que a partir dali passamos a carregar dentro de nós aquela possibilidade. No Brasil que passa na TV a realização da nossa vida não depende do nosso trabalho, da nossa responsabilidade, da nossa solidariedade, do nosso amor, do nosso cuidado com a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade. A televisão nos ensina que a vida é um instante de sorte. Tudo acontece por acaso, ninguém é responsável pelo que acontece. Somos vítimas, mais do que autores do que vivemos. A televisão nos ensina que o que vale pra hoje, amanhã não vale mais. O certo de hoje pode ser o errado de amanhã. Os valores mudam com a mesma velocidade que levamos nossa vida. Os valores nos orientam apenas por alguns momentos, não para a vida inteira. Não temos mais uma ética capaz de acolher aquilo que vem da velhice, suas histórias. Por isso seria tão difícil ouvir aquela história tão longa de Opoekê, o índio ikpeng. Aquela história faria com que a gente se detivesse durante seis horas, num único acontecimento: ouvir uma história. Como suportar? Esse acontecimento nos tiraria da velocidade em que vivemos, nos colocaria no tempo real, que é o da duração da nossa vida, aquele que começa com o nosso nascimento e termina com a nossa morte. A velocidade com a qual estamos acostumados, aquela que está sempre pensando no próximo instante, no que virá depois, entretém a nossa vida, nos faz esquecer da nossa velhice, nos distrai da morte. Afinal, parece que nada terá fim, enquanto a televisão estiver sempre a anunciar, a próxima atração. Mudar essas relações de poder, de prioridade do consumo, passa pelas mãos do jornalista. Ele pode ter uma imensa contribuição na mudança de uma consciência ética de uma população. É o jornalista quem faz circular valores, interesses. É ele quem mantém acesa uma interpretação de mundo, ao ter o poder de ser os olhos de outros homens, ao ter o poder de ser o coração de outros homens. Nota do Editor: Neide Duarte é jornalista, apresentadora do programa "Caminhos e Parcerias" da TV Cultura.
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