“A democracia é a arte e ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos.” (H. L. Mencken) Henry Louis Mencken foi um iconoclasta difícil de ser reduzido a algum rótulo simplista. Chamado por alguns de “Nietzsche americano”, Mencken não poupava ninguém de sua ácida pena. Religiosos, democratas, poetas, artistas, todos eram ridicularizados por ele, que considerava o homem médio um grande idiota e covarde. A obra O Livro dos Insultos, que fora publicada em 1988 no Brasil, recebe agora uma segunda edição, com a seleção e tradução dos artigos por Ruy Castro. Trata-se de uma verdadeira metralhadora giratória, com especial valor na era do ápice da ditadura do politicamente correto. Apesar de escritos na década de 1920, seus artigos parecem bastante atuais, principalmente quando pensamos no caso brasileiro. Mas mesmo nos Estados Unidos, a idolatria que Obama despertou seria material farto para a ironia e desprezo de Mencken. Vejamos, por exemplo, essa afirmação: “A civilização torna-se cada vez mais histérica e babona e, especialmente sob a democracia, tende a degenerar num mero bate-boca entre dementes. O único objetivo da prática política, por exemplo, é manter o povo alarmado (e, portanto, clamando por ser conduzido em segurança) por uma galeria interminável de capetas e papões, todos, claro, imaginários”. Como ler essas linhas e não pensar na histeria com o aquecimento global, que tomou conta da humanidade? Como ignorar o pânico freqüente com epidemias, como a SARS, a vaca louca, a gripe suína? Até mesmo a crise econômica é utilizada para alastrar pavor nos leigos, passando-se logo em seguida o chapéu dos impostos e concentrando mais poder nos governos. Num mundo habitado por covardes, os charlatões fazem a festa. Os ataques de Mencken ao governo jamais perderão validade. Ele disse, por exemplo: “Todo governo, em essência, é uma conspiração contra o homem superior: seu objetivo permanente é oprimi-lo e manietá-lo”. Como ler isso e ignorar o que se passa no Brasil, onde a mediocridade é alçada ao patamar de deus? A meritocracia tem seus dias contados num país onde a amizade com os governantes vale mais que qualquer coisa para subir na vida, e onde características como a cor da pele, são determinantes para abrir as portas das universidades. Mencken acrescenta: “Para o governo, qualquer idéia original é um perigo potencial, uma invasão de suas prerrogativas, e o homem mais perigoso é aquele capaz de pensar por si próprio, sem ligar para os tabus e superstições em voga”. Experimentem fazer declarações contra o consenso da manada hoje em dia para ver a reação da turba! Se algo mudou desde os tempos de Mencken, com certeza não foi para melhor nesse sentido... “Revoluções políticas quase nunca realizam nada de verdadeiro mérito; seu único efeito indiscutível é enxotar uma chusma de ladrões e substituí-la por outra”, escreveu Mencken. Se considerarmos a chegada do PT de Lula ao poder uma “revolução”, tais palavras não servem como uma luva? Nem mesmo todos os ladrões foram enxotados, pois muitos simplesmente mudaram de lado, e se aliaram ao novo governo. Os caudilhos nordestinos, antes alvos dos mais terríveis ataques morais dos petistas, agora são todos membros do governo, beijando as mãos do presidente Lula e seus camaradas. Para Mencken, “o governo ideal de qualquer homem dado à reflexão, de Aristóteles em diante, é aquele que deixe o indivíduo em paz – um governo que praticamente passe despercebido”. Mas ele era realista o suficiente para saber que esse ideal levará uns vinte ou trinta séculos para se concretizar, dependendo de homens tão covardes que necessitam do governo como uma espécie de pai. Os ataques ao governo continuam: “Todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriram o duvidoso direito de embolsar uma parte dos ganhos de seus semelhantes”. No Brasil, essa “parte” já chega a praticamente metade de tudo gerado pelos indivíduos. Em um país onde o discurso patético de pagar impostos para “comprar cidadania” ainda encontra forte eco, o alerta de Mencken não poderia ser mais útil: “O homem inteligente, quando paga os seus impostos, não acredita estar fazendo um investimento prudente e produtivo de seu dinheiro; ao contrário, sente que está sendo multado em nome de uma série de serviços que, em sua maior parte, lhe são inúteis e, às vezes, até prejudiciais”. Num país onde o governo financia até vagabundos invasores de propriedade privada, como o MST, poderíamos dizer que Mencken foi bondoso demais em sua análise... O objetivo do governo é o mesmo de todo parasita: extrair o máximo possível do hospedeiro. “Esses predadores constituem um poder constante sobre sua cabeça, sempre alerta para novas chances de espremê-la”, diz Mencken. E conclui: “Se pudessem, reduziriam-no à roupa do corpo. E, se deixam alguns trocados com ele, é apenas por prudência, assim como o fazendeiro deixa à galinha alguns de seus ovos”. Para finalizar, demonstrando o caráter atemporal da percepção de Mencken, um sucinto resumo da situação atual brasileira: “Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive”. Nota do Editor: Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças no IBMEC, trabalha no mercado financeiro desde 1997, como analista de empresas e depois administrador de portfólio. Autor de dois livros: Prisioneiros da Liberdade, e Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT, pela editora Soler. Está lançando o terceiro livro sobre as idéias de Ayn Rand, pela Documenta Histórica Editora. Membro fundador do Instituto Millenium. Articulista nos sites Diego Casagrande e Ratio pro Libertas, assim como para os Institutos Millenium e Liberal. Escreve para a Revista Voto-RS também. Possui um blog (rodrigoconstantino.blogspot.com) para a divulgação de seus artigos.
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