Crônica do Quinho
A discussão estava acirrada. Antonio, o advogado grandalhão, ironizava a indignação de Paulo, o economista, sobre o movimento em favor da re-reeleição de Lula Lá. Quinho ouvia a todos em silêncio. – É golpe, sublinhava Paulo, é golpe contra o Serra. A raça do PT não tem ninguém fora o Lula para puxar voto. Então querem porque querem rasgar a Constituição para se perpetuarem no poder. – Não faz diferença nenhuma, caro Paulo, replicou Antonio. Serra é também um socialista. E tem o agravante de não ser um conciliador, tem índole autoritária muito perigosa. É o proibidor de quentão em quermesses, falou ironizando. Proibiu o cigarro, coisa de totalitário. Nem Hitler. – Não acho, replicou Paulo. Serra é um democrata, combateu a ditadura e amargou o exílio. Tem participado do jogo democrático desde sempre. É um democrata. Esse negócio de quentão está certo, é álcool, proibido. E cigarro dá câncer. – É democrata nada, respondeu Antonio. Viu o número dois dele, o Aloysio? O cara era bandidão, assaltou o trem-pagador, terrorista da pesada. Pior que a Dilma. Ele manda no Serra. Além do mais, é genro do Allende, toda gente esquece. Comunista de quatro costados. Nesse ponto eu falei: “Mas isso é passado, teve a Anistia e todo mundo agora atua na legalidade”. – É, mas os comunas não esquecem jamais. Ficam perseguindo gente honrada como o Coronel Ustra. A Anistia só vale de um lado, o deles, falou Antonio. Sem falar nas indenizações imorais que se deram. – Vai ter terceiro mandato ou não? Perguntei. – Olha, o prazo para a apresentação da emenda constitucional está se esgotando e acho que não dá mais tempo, falou Antonio. Além do mais, o ministro Gilmar Mendes disse que uma emenda dessas não passa no Supremo Tribunal Federal. Entendo que legalmente não haverá como. – Também penso assim, falou Paulo. Se os petistas tivessem aprovado a CPMF no Senado o quadro político seria outro. O Serra tem a sua base política forte que vetará a aprovação pelo Congresso. – O que você acha, Quinho? Perguntei. – Doutor, em política nada é impossível. É como dizem, tudo muda como as nuvens em política. E o STF não tem como barrar a vontade política se uma maioria for constituída, senão dá crise institucional. Gilmar Mendes não tem como segurar essa, se o Congresso cumprir os requisitos formais. Então acho que a palavra final está com os congressistas. Entendo o terceiro mandato como uma espécie Terceiro Reich de Lula. Será o reino das promessas impossíveis em que o alento revolucionário vai se completar. A quantidade de pessoas que vinculou suas aspirações pessoais ao projeto do PT soma milhões de almas, incluindo aí os portadores de bolsas e anistias. O PT fez do Erário o pagador de benesses para um vasto clube, que não quer perder a boquinha. Sem contar os quadros partidários que nada sabem fazer exceto militar e puxar palavras de ordem. Não devemos subestimar essa gente, funcionam como a SA do Lula. Temam o MST, os quadros do PT, do PCdoB e de todos que estão na canoa revolucionária. E o funcionalismo público. E os aposentados. Ganhar essas eleições virou questão de sobrevivência, são profissionais de puxar votos para Lula. Uma legião de parasitas e vagabundos, que fez do Estado a alavanca para seu bem-estar. São socialistas de resultados, uns oportunistas. Essa gente pode ficar muito perigosa. Lula virou a tábua de salvação para eles. É o Führer da comunalha. Então nada está definido. Eu não me surpreenderia se uma onda se levantasse e garantisse o Terceiro Reich do Lula Lá. Num quadro assim tem muita eletricidade no ar, um grande potencial de violência. – O que acontecerá, Quinho? – Ninguém sabe, doutor. Quem viver verá. Nota do Editor: José Nivaldo Cordeiro (www.nivaldocordeiro.net) é executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.
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