A população em geral ainda dispõe de pouco conhecimento sobre o problema da disfluência, comumente conhecido como gagueira. Segundo o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), a incidência da gagueira no Brasil é de 5%, ou seja, 9,5 milhões de brasileiros estão passando por um período de gagueira neste momento. A prevalência da gagueira é de 1%, ou seja, 1,9 milhão de brasileiros gaguejam há muitos anos de forma persistente, crônica. A gagueira é um distúrbio de fala que é facilmente notado. Acontece de forma involuntária e a pessoa sabe exatamente o que quer dizer, mas tem uma dificuldade na automatização dos movimentos da fala. A maior parte das pessoas acredita que a origem da gagueira seja apenas emocional, sendo que, na verdade, é uma associação de fatores genéticos, orgânicos, sociais e psicológicos. Como vivemos em uma sociedade em que a fala fluente é importante e comumente associada à inteligência, competência e domínio em relação a um determinado assunto, uma pessoa disfluente pode ser vista como ansiosa e insegura. Desta forma, a pessoa que gagueja acaba sofrendo preconceito, além de diversos problemas sociais, profissionais e familiares, que podem provocar isolamento, resultantes da sua dificuldade de fala. A pessoa que gagueja quase sempre é motivo de piada e brincadeiras e, muitas vezes, não é levada a sério. Grande parte das pessoas que gaguejam se queixa, portanto, de ter sua disfluência associada a aspectos como capacidade intelectual e profissional. Algumas delas relatam dificuldade em acompanhar o curso de faculdade, arrumar um trabalho ou até mesmo namorar, em consequência do problema. Falar ao telefone também é uma situação em que o indivíduo que gagueja encontra, geralmente, grandes dificuldades. Por motivos como estes, a pessoa que gagueja pode apresentar baixa auto-estima e grande sofrimento interno. É comum as pessoas não terem paciência para escutar o que a pessoa que gagueja tem a dizer, interrompendo a sua fala ou até mesmo completando, de forma equivocada, o que o disfluente irá dizer. Muitos relatam histórias em que aceitaram alguma coisa que não desejavam, apenas para não estenderem a situação desconfortável. Posso citar, por exemplo, um paciente que, ao tentar pedir um prato de sua preferência em um restaurante, viu-se diante de uma situação em que sua dificuldade de fala gerou impaciência nas pessoas da mesa e no garçom que anotava o pedido. Ele acabou apenas dizendo “o mesmo”, referindo-se ao pedido de outra pessoa, que nada tinha a ver com o que ele realmente desejava jantar e terminou a noite insatisfeito. Tratando-se de um distúrbio que não afeta a inteligência nem outras habilidades do indivíduo, a gagueira não deve impedir que o disfluente trabalhe, estude e seja bem sucedido profissional e pessoalmente. Além disso, vale ressaltar que a gagueira não é contagiosa e que, a forma como a gagueira interfere na vida social do indivíduo depende muito de como é a personalidade do mesmo e de sua relação com as pessoas. Até o momento não existe cura para a gagueira, no sentido de eliminar os aspectos orgânicos envolvidos. Porém, existem diferentes linhas de tratamentos fonoaudiológicos disponíveis, que promovem uma diminuição significativa da gagueira. Portanto, se você sofre com algum distúrbio na fala, consulte um fonoaudiólogo. Nota do Editor: Érica Ferraz é fonoaudióloga do Grupo Microsom.
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