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Chama-me por demais a atenção a postura que muitas pessoas que não tem o que fazer acabam por inventar para infernizar a vida alheia. E como tem gente sem o que fazer neste país meu Deus do Céu recebendo soldos como se muito fizesse. Dentre essas pessoas, há algumas que procuram inventar modismos "mui dos brega" para que nós venhamos a nos portar de maneira aparvalhada para assim fingirmos que estamos resolvendo os problemas da sociedade. Exemplo destes modismos, insípidos como todos os demais, são as novas tendências em educação, principalmente no que tange ao processo avaliativo. Alias, fala-se por demais em avaliação, métodos de avaliação, mas em momento algum aponta-se para quais critérios deve-se observar o desempenho do aluno. Lá vem aqueles desocupados falando que devemos trabalhar assim, vez por outra trabalhar assado e que o educando nada tem de dolo, que esses seriam as encarnações do mítico bom selvagem de Jean-Jacques Rousseau. Bonzinhos e ávidos à aprender por sua própria natureza, porém, nós professores enquanto seres depravados da sociedade decaída apenas estragamos eles. E é justamente neste ponto que essas pseudo-teorias pecam mortalmente, pois parte de uma compreensão abstracionista do ser humano. Infelizmente (ou não), nós somos seres imperfeitos, e estamos condenados pela nossa própria natureza social a termos sempre que escolhermos entre uma e outra alternativa. Quando infantes, não temos ainda nossas capacidades cognitivas plenamente desenvolvidas sendo assim pouco aptos a realizarmos escolhas que tenham por vista a realização de planos a longo e médio prazo, que sinalizariam a madureza, segundo os ensinamentos de Platão e Aristóteles. A percepção de tal problema é simples: pergunte a uma criança de 5ª ou 6ª série o que ela prefere: ter aula ou jogar futebol? Ver um filme (dublado) ou ler um livro? Ou melhor, nos coloquemos em situações similares. Se tivéssemos um sábado onde pela manhã realizássemos uma reunião pedagógica e à tarde o diretor propusesse que fosse realizado um grupo de estudos e este fosse facultativo, o que será que ocorria? Com sinceridade? A resposta para essa situação é simples: há dentro de nós sim, uma figura que deseja trabalhar, ser disciplinada, mas, há também a figura de um cão sarnento e vagabundo que quer saber apenas de comer e dormir. Ou, trocando em miúdos, como antigamente a mitologia Cristã nos ensinava com aquela historinha do diabete e do anjinho. Ou então, se você é daqueles que preferem uma linguagem mais requintada, há em nós um impulso de vida [Eros] e outro de morte [Tanatos]. Nesse sentido, o medo é um sentimento extremamente educativo (o medo, não o pavor). Alias, é ele que nos mantém vivos, não é mesmo? É o medo que nos afasta de animais peçonhentos, que nos ensina a cuidarmos de nossa saúde, a não atravessarmos ruas de maneira distraída e, que nos ensina a sentirmos prazer com determinadas coisas que até então temíamos, inclusive nos estudos. Confessava-nos em certa ocasião em um de seus artigos, o jornalista Janer Cristaldo que quando era infante o que o movia a estudar e a dominar as regras da escrita não era o amor desprendido ao estudo, mas o medo da reprovação no velho Colégio D. Pedro II. Tal sentimento não o impediu de tornar-se um grande escritor e um exímio cronista. João Ubaldo Ribeiro, aprendeu a língua anglo-saxônica na marra, dominando-a tão bem quanto um estadunidense ou um inglês. E por aí segue o bonde. Em fim, toda teoria que queira projetar alguma luz sobre o processo educacional e em especial sobre a mensuração do aprendizado dos alunos e descartar o duro fato de que estes, como nós, não são criaturas angelicais é em si uma teoria inválida, por querer determinar a natureza humana desprezando o conhecimento empírico sobre a mesma. Exemplo disso: já estamos a doze anos com uma média bimestral reduzida a 5,0, ou em outras palavras, um aproveitamento médio de 50% do que fora ensinado. Estamos com uma constante pressão por parte das Potestades que nos governam juntamente com a imbecilidade acadêmica para que façamos tabula rasa frente a incapacidade estimulada por um sistema populista que conseguiu a façanha de contaminar as salas de aula com a sua velha lengalenga sobre exclusão. Em outras palavras, reprovação é quase sinônimo de crime inafiançável. Não que seja eu um defensor da nota como modo único de mensuração da aprendizagem, mas sim, que se faça uso de um critério que leve o mesmo a desejar crescer e não meramente se acomodar no nível de uma letargia aguda. Quanto menor a exigência maior o sentimento e mesmo o sentido da acomodação com o razoável como se esse fosse o supra sumo. Ilustro esse ponto com a fala de uma professora com muitos anos de magistério da cidade de Dois Vizinhos, a qual me dizia que a uns quinze anos atrás havia nas salas de aula com 40 alunos 5 que não queria nada com nada e o restante se interessava. Hoje, a situação está invertida. E no seu colégio é diferente amigo? Será que não está na hora de revermos nossos conceitos? De mais a mais, cá entre nós: há maior exclusão que você permitir que um aluno receba o diploma de formação fundamental ou média sendo um legítimo analfabeto funcional? Há exclusão maior que estimular de maneira negativa os alunos dedicados, que até então eram dedicados e de tanto verem alunos relapsos serem aprovados acabaram se sentindo desvalorizados e juntaram-se a onda do "to nem aí"? Você já viu algum aluno destes? Eu já, e é estarrecedor. Alias, será que a vida será tão gentil assim com eles quando eles não atingirem os pré-requisitos que ela exige? Se o amigo crê que sou um retrógrado reacionário, que estou defasado e coisas do gênero, lhe pergunto então apenas uma coisinha: me diga qual escola particular, uma escola voltada para uma seleta elite, que faça uso deste trololó de que passar a mão na cabeça, de bajular a indisciplina é o melhor método de ensino? Bem, mais uma vez, em nome do bem dos mais humildes é prejudicado justamente aqueles que pretensamente se pretendia amparar. E, se você é um professor de fato, procure indagar-se mais sobre este estado de coisas, para que mais tarde não venham nos responsabilizar integralmente pela futura nesciedade coletiva que vem dia após dia tomando contra deste rincão Brasil.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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