Crônica do Quinho
Estávamos todos na calçada do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. A conversa não podia ser outra, as traquinagens do Senado com seus atos administrativos secretos. Paulo, o economista, era o mais irado: – Esse Sarney é um pilantra. Deveríamos fazer um movimento nacional de Fora, Sarney! Não tem condições morais nem de ser senador, quanto mais presidente do Senado. – Desta vez foram longe demais, fazendo atos secretos de governo, algo expressamente vedado da Constituição, falou Antonio, o advogado grandalhão. Esses atos não têm valor jurídico, as despesas que foram pagas por conta deles deveriam ser reembolsadas e os autores, tanto os que autorizaram como aqueles que foram beneficiários, processados criminalmente, inclusive por formação de quadrilha, com o fito de pilhar o erário. – O que mais me deixou desconcertado foram as declarações de Gilmar Mendes, como se aquilo não dissesse respeito ao STF, falei. Ora, a coisa está diretamente relacionada ao Supremo, o guardião da Constituição. Sarney e seus asseclas foram flagrados em atos de burla à lei maior. – Vocês erram em querer jogar tudo nos ombros do Doutor Sarney, falou Quinho. – Lá vem você defender esse pilantra, quase gritou Paulo. Um ladrão, um salafrário, um coronel safado que fez das instituições de Estado letra morta. Fora com esse coronel de fancaria! – Doutor Paulo, argumentou Quinho com toda calma, existem leis escritas e leis não escritas. Há muitas práticas que são suportadas nos costumes e ninguém ignora isso. Gilmar Mendes, ao relevar, sabe disso. Não pode levar a lei escrita a ferro e fogo, senão fecha o Congresso. Se fechar o Congresso, fecha o STF, vira ditadura. Esse negócio de empregar os parentes faz parte das leis não escritas e o Doutor Sarney, que é membro do poder há meio século, ou mais, sabe que não pode descumprir os acordos políticos envolvendo parentes e cabos eleitorais graúdos. Do contrário, perderia a liderança sobre os senadores. Já que tinha que fazer para os outros, aproveitou para fazer para o seus. A lei de São Mateus, ora bolas. Ninguém pode acusar o Doutor Sarney de ter inventado a prática, ele só a manteve em uso, em nome da governabilidade. – Não seja cínico, Quinho, isso é um disparate. Descumprir a Constituição é crime grave. Não se pode tergiversar sobre isso, falei. – Doutor, já viu o tamanho do orçamento que o Congresso aprova todo ano? Que são alguns salários de familiares perto daquela dinheirama toda? Nada. Isso é farisaísmo da imprensa, que ignora as leis não escritas do compadrio político, a verdadeira instituição nacional, que costurou a nossa unidade política. Paulo não se conteve: “Você está dizendo que essa bolsa família do Sarney sempre existiu? Que é necessária para a manutenção da Federação? Da paz social? – Precisamente, Doutor Paulo. Se levarem essa pendenga a ferro e fogo teremos uma crise institucional de largas proporções. As oligarquias regionais não aceitarão reduzir essa prática. Teriam que chamar de novo os milicos. Alguém quer isso? Ninguém quer. Cassar o Doutor Sarney é cassar o Senado, percebeu? Algo muito grave. Doutor Sarney é o guardião das instituições. Entre todos os senadores é o mais santo e mais probo. Todos nós ficamos desconcertados. Claro que o que foi noticiado de práticas nepotistas é uma infâmia. Mas Quinho tinha alguma razão. Política não passa disso, de crime com outro nome. A ironia é que são os criminosos os que fazem e aplicam a lei. Nota do Editor: José Nivaldo Cordeiro (www.nivaldocordeiro.net) é executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.
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