Até 2012, o número de terráqueos aumentará de seis para sete bilhões, quase uma Índia a mais; até 2050, serão nove bilhões os habitantes do Planeta, um crescimento, em relação a 2008, equivalente ao dobro do número de habitantes da China. Estas projeções, constantes do recente relatório Revisão das Perspectivas para a População Mundial de 2008, do Departamento da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais (DESA), dimensionam em termos práticos o desafio da sustentabilidade. Em síntese, será preciso encontrar soluções para alimentar, vestir, garantir habitação, saúde e educação para as novas gerações, além de resgatar o passivo representado pelos grandes contingentes atuais de excluídos. E tudo isso precisa ser feito sem danos ambientais, cessando a emissão de gases do efeito estufa e manejando de modo adequado a exploração dos recursos naturais. Um único e preocupante dado é suficiente para evidenciar a dureza do embate da sobrevivência: um bilhão de pessoas, conforme revelou a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), já passa fome em todo o mundo. Como se não bastasse, a atual crise financeira e econômica pode lançar ainda mais pessoas à fome e à pobreza, caso decisões urgentes e medidas corajosas e eficazes não forem tomadas. Assim, a despeito da grande importância de todos os demais itens que consubstanciam o conceito contemporâneo de sustentabilidade, não há dúvida de que a prioridade é a segurança alimentar. Afinal, alimentação correta e vida saudável são a base de uma sociedade mais equilibrada, com menos doenças e na qual haja mais oportunidades para que os indivíduos ascendam a patamares de renda acima da linha da pobreza. Esses são os pilares efetivos da sustentabilidade. Consideradas tais premissas, é muito pertinente a proposta de se realizar a Cúpula Mundial da Alimentação em novembro próximo, em Roma, na Itália, durante a 36ª Sessão da Conferência da FAO. Este reconhecido organismo multilateral espera alcançar resultados tangíveis, assegurando amplo consenso sobre a completa e rápida erradicação da fome, criando uma nova ordem alimentar mundial. O objetivo é muito louvável e merece o apoio de todos os governos, como já fizeram o Brasil e várias outras nações. O diretor da FAO, Jacques Diuf, já tem antecipado a pauta do evento. Para ele, a cúpula deverá conferir mais coerência à estrutura de governança global da segurança alimentar. O encontro, salienta, definirá como será possível melhorar as políticas e os aspectos estruturais do sistema agrícola internacional, impulsionando soluções políticas, financeiras e técnicas duradouras. Na presença de chefes de Estado e governo e autoridades do setor, o encontro deverá reiterar os apelos para que a comunidade internacional seja mais ativa no cumprimento de sua promessa de combater a fome, mobilizando US$ 30 bilhões por ano para investir em infra-estrutura rural e promover a produção agrícola e a produtividade nos países em desenvolvimento. Tudo isso é muito pertinente, em especial se considerarmos o atraso no cronograma do aporte financeiro da comunidade internacional no combate à insegurança alimentar, definido em 2008 e não cumprido. Por enquanto, apenas a União Européia, dentre os protagonistas do mundo desenvolvido, tem feito aporte mais expressivo de recursos, como a recente doação de US$ 144 milhões à FAO. Enfim, a Cúpula Mundial da Alimentação ocorrerá em momento muito oportuno. Em todo esse debate, contudo, é de se estranhar a exclusão de um setor essencial à conquista da segurança alimentar: a indústria alimentícia, ora, responsável, segundo o IBGE, pelo escoamento e distribuição de 85% dos alimentos consumidos! Obviamente, a agropecuária, a ampliação das áreas agricultáveis e adoção de condições mais adequadas à cultura de alimentos são imprescindíveis. Porém, também é decisiva a contribuição da indústria, cada vez mais avançada quanto à produtividade (otimizando o aproveitamento da produção rural), qualidade e valor nutricional, além dos investimentos em pesquisa e tecnologia. Dessa maneira, o setor não pode continuar sendo ignorado na pauta dos grandes fóruns mundiais sobre alimentação e precisa ter espaço na cimeira de novembro, pois a gravidade do desafio a ser enfrentado exige a mobilização conjunta de todos os elos dessa prioritária cadeia de suprimentos. Nota do Editor: Edmundo Klotz é o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (ABIA).
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