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Opinião
19/10/2004 - 08h31
Laptops na praia
Christian Rocha
 

A prática do yoga, o Aikido, as terapias holísiticas ou naturalistas, as religiões orientais, teorias ecológicas e algumas correntes pedagógicas ensinam que não existe uma vida plena fora da natureza. O ser humano, como qualquer ser vivo, interage com o ambiente, que lhe determina muitas características - do humor à cultura, incluindo a saúde, a economia e o aspecto das cidades. O avanço tecnológico mostrou que isso poderia ser mudado. Através da tecnologia o homem pôde interferir na natureza, desenhá-la conforme as necessidades.

Seguindo a lógica mais comum hoje em dia, pode-se dizer que a tecnologia também é parte da natureza. Ainda que tenha sido fruto da mente humana, a tecnologia só existe enquanto interage com o ambiente, respeita leis naturais e utiliza-se de matéria colhida na natureza. Nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, foge a essas três regras. Apesar disso, conforme a tecnologia se desenvolve, mais e mais ela se afasta de sua origem natural. É quase um clichê afirmar que as novas tecnologias oferecem respostas para necessidades criadas pelas tecnologias anteriores.

Prova desse afastamento é a própria imagem que a tecnologia tem no imaginário das pessoas. Diga a palavra "tecnologia" e logo virão à mente imagens de viagens espaciais, de robôs, de cenários de aço inox, de computadores e realidades virtuais. Caminhar na floresta é algo natural; enviar um e-mail é algo tecnológico. Estamos tão presos a essas idéias que já não conseguimos conciliar uma coisa à outra. As cidades são uma prova dessa fragmentação. Nossas vidas são reflexo dessa urbanidade cancerígena. Mais e mais precisamos recorrer a "paraísos naturais" (cada vez mais tomados por hotéis e pousadas) para experimentar alguma tranqüilidade, embora algumas pessoas ainda levem celulares e laptops à praia.

É neste momento, quando a tecnologia predomina, que devemos olhar as práticas e as lições que nos tem sido oferecidas ultimamente. Elas não têm garantido uma modificação dos nossos hábitos, mas têm nos ensinado a importância de uma vida mais natural. O yoga fala objetivamente da importância da respiração profunda como meio para melhorar a saúde do corpo e da mente. O Aikido utiliza-se de movimento naturais, desenvolve a energia vital e fala em harmonizar-se com a energia universal. As terapias holísticas e naturalistas falam da importância da vida natural e da influência que os pequenos gestos têm nos grandes sistemas; religiões orientais mencionam estas mesmas idéias, o respeito à vida e as práticas naturais. A ecologia desenvolveu-se bastante no plano teórico; não faltam idéias para aqueles que pretendem conduzir sua vida de maneira mais natural. A permacultura, por exemplo, propõe uma racionalização da ação humana sobre a natureza, tornando-a sustentável e, mais uma vez, promovendo uma integração entre tecnologia e natureza. Algumas correntes pedagógicas, atentas a essas transformações teóricas, munem-se com elementos semelhantes e criam métodos de ensino em que a criança é colocada com mais freqüência em contato com a natureza, em pomares, hortas, jardins etc.

É fato que essas transformações teóricas não têm sido suficientes para modificar a vida urbana, que continua sendo essencialmente tecnológica. O que falta?

Responder esta pergunta é algo difícil. A primeira resposta recai sobre as grandes cidades: a vida numa metrópole submete o ser humano a um ritmo que não permite qualquer tipo de naturalidade. O adensamento encarece terrenos, as moradias perdem espaço e chão. Com isso o contato com a terra torna-se difícil, senão impossível. Conseqüência disso é a mudança do clima urbano e as constantes enchentes, fatores que sempre têm graves conseqüências na vida das pessoas - conseqüências materiais, sociais, psicológicas e biológicas. Com isso podemos pensar que talvez a vida nas grandes cidades não ofereça a chance do indivíduo tornar sua vida mais natural. Ainda que se construam praças e parques, grandes cidades continuarão a ser essencialmente urbanas, tecnológicas e desumanas.

A segunda resposta parte da primeira, considerando que - oras - cidades, mesmo as grandes, são lugares essencialmente humanos e, portanto, naturais. Se a metrópole é tal como a vemos, é porque as pessoas assim a construíram. Daí podemos imaginar que aproximar a natureza e a vida humana implica um desejo por essa aproximação. O êxodo, isto é, o simples abandono das grandes cidades em busca de vida melhor numa cidade pequena, apenas mudaria o endereço do problema. Não sabemos, por exemplo, até onde o ritmo de vida determina sua materialidade, o que faz pensar que a crença numa vida mais natural poderia conduzir a hábitos mais naturais, o que, portanto, modificaria lentamente o desenho das cidades. Desta forma, o que faltaria não seria um lugar físico adequado para as idéias naturais, mas um lugar mental, o desejo de somar tais idéias à própria vida.

Não me agrada pensar numa única resposta. Acredito nos dois fatores. Nossas vidas são tecnológicas porque assim o queremos e porque o ambiente assim exige. Optar por uma vida mais lenta e menos tecnológica poderia nos conduzir para outros lugares; ou a opção por lugares diferentes poderia nos acostumar a outros ritmos de vida. Pouco importa o que venha primeiro. O que importa é colocar em prática aquilo em que acreditamos, suavizar um pouco nosso apego à tecnologia e lembrarmo-nos da importância da natureza no dia-a-dia, não apenas nas férias.


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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