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Crônicas
04/07/2009 - 08h12
O bode que dá bode
Joel de Sá
 

Tudo numa cidade pequena é grande novidade. Foi um grande reboliço quando foi fundada a primeira igreja protestante em Boqueirão da Chapada, no interior do Nordeste.

Um jovem casal, chegado há pouco da Suíça, foi incumbido de apaziguar as almas rebeldes daquele sertão remoto. A paciência, o espírito caritativo e a generosidade dos evangelizadores contribuíram para que em menos de dois meses mais de duas centenas de almas estivessem convertidas à fé cristã. Três vezes por semana as aconchegantes acomodações do templo, erguido em tempo recorde, ficavam superlotadas.

O pastor avisou que todos os convertidos deviam expor sua decisão de se converter à fé em público. Ou seja, devia ser feita uma confissão pública em que o confessante revelaria os motivos perante Deus e perante os homens, fazendo uma declaração de arrependimento de todos os seus pecados para que não só Deus como os homens pudessem glorificá-los. Só aí o crente poderia receber o batismo e, consequentemente, o perdão dos pecados.

No dia marcado para o primeiro batismo havia uma multidão de novos crentes e de curiosos. O salão do templo não comportou tanta gente, de modo que os curiosos ficavam a bisbilhotar do lado de fora das janelas - aliás, a espreita a distância é uma característica peculiar de curiosos maldosos.

O primeiro testemunho seria de Dona Zefinha, uma mulher já com seus sessenta. Auxiliado por sua esposa, o pastor pôs a bíblia aberta sobre a cabeça de Zefinha e proferiu: "Irmã, relate agora para Deus e para o mundo os pecados que a senhora cometeu". E ela com a mão sobre o peito: "Eu já cometi muitos pecados, meus irmãos. Amanheci em festas, acobertei o namoro de uma vizinha casada, tomei o marido de minha prima. Já fui mulher da vida. Bebia cachaça e dizia: Isso aqui é de vocês (batendo a mão na virilha)". Lá fora houve um verdadeiro alarido de gargalhadas. O pastor pediu com educação, porém com uma certa rispidez, que o povo fizesse silêncio.

O batismo e os depoimentos mordazes continuavam. Por fim foi a vez de Toinho Piaba, um homem de pele escura, de pequenas posses, residente na zona rural. O pastor posicionou a Bíblia em sua frente e fez com que ele iniciasse seu depoimento. "Eu, meus irmãos, também já cometi muitos pecados cabeludos, mas hoje, meu Deus, tou arrependido. Bebi cachaça, bati em minha mulher, curti muita preguiça deitado debaixo de um pé de juá e roubei muitos bodes do Herculano Ferraz". Herculano era um fazendeiro cujo latifúndio abraçava o pequeno sítio de Toinho. Herculano Ferraz que estava do lado de fora da igreja, pôs o rosto na janela e gritou: "Desce daí, negro safado, e vem agora pagar meus bodes. Tu agora vai pagar mais de cem bodes que sumiram do meu pasto!"
A correria, a gargalhada e a balbúrdia tomaram conta da cena.

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