Os principais indicadores econômicos, em especial no Brasil, demonstram que, paulatinamente, o mundo vai começando a superar a grande crise internacionalizada a partir de outubro de 2008. Ainda há um longo caminho a percorrer até a plena retomada do nível de atividades anterior ao colapso dos derivativos e o restabelecimento da ordem capitalista, com a redefinição do status quo de grandes empresas praticamente estatizadas pelo governo dos Estados Unidos, numa das maiores operações de socorro financeiro de toda a história da economia. De todo modo, o "dia seguinte" da grave crise já parece despontar no horizonte. Com ele, a retomada efetiva da atividade econômica deverá conferir ênfase ainda mais aguda aos parâmetros de competitividade. Requisitos como preço, qualidade, atendimento e segurança dos produtos deverão ser ainda mais valorizados pelos mercados, pois o crash mundial certamente tornará todos mais alertas contra qualquer tipo de risco. A presente crise mostrou que a economia não tolera desaforos, nem na gestão financeira (como ocorreu com os derivativos) e tampouco na produção, matérias-primas, insumos, bens de capital e de consumo. Assim, a tecnologia, hoje decisiva para a produtividade, qualidade e baixos custos produtivos, assume papel ainda mais relevante no universo industrial. A questão, pouco aventada nos debates e noticiário relativos ao enfrentamento da crise, ficou muito clara em pronunciamento de Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), no seminário "Políticas públicas para incentivar a inovação no setor privado - uma agenda prioritária". O encontro, preparatório para cúpula de governos da região, realizou-se no Rio de Janeiro, em 30 de junho, passando um tanto despercebido. Não apenas no pronunciamento da representante da Cepal, como em outras palestras, evidenciou-se a necessidade de os países fortalecerem suas políticas de inovação ante a aceleração tecnológica e o avanço do crescimento sustentável que ocorrerão após a derrocada da crise econômica. O preocupante é que, na última década, a América Latina, a despeito da modernização tecnológica observada em algumas nações, vem mantendo praticamente inalterados os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Alicia Bárcena destacou a posição do Brasil, que, segundo os dados da Cepal, ampliou seus investimentos em P&D de 0,5% do PIB, em meados dos anos 90, para 1%, em 2006. Os demais países, na média, não aumentaram os aportes para a importante área. Detalhe significativo é que nas nações desenvolvidas, mais de dois terços dos investimentos com pesquisa realizam-se no setor privado, enquanto na América Latina os empresários respondem por menos de um terço. Embora venha se destacando na América Latina em termos de investimento em P&D, o que já significa apreciável vantagem competitiva, o Brasil ainda precisa implementar os seus esforços em ciência e pesquisa, em especial no sentido de promover maior aproximação entre a academia e o chão de fábrica. É verdade que houve um avanço nesse processo, mas ainda aquém do porte econômico do País. Precisamos de mais cientistas trabalhando nas empresas, como se observa em numerosas nações, como na Coréia do Sul, onde essa aproximação teve grande influência no desenvolvimento. O significado prático dos investimentos em tecnologia podem ser observados no setor de transformação de plásticos, inclusive no Brasil. Hoje, esses materiais são utilizados em grande escala em diversas áreas da indústria. É comum observar que peças inicialmente produzidas com outros materiais, particularmente metal, vidro ou madeira, têm sido substituídos por outras de plásticos. Essa expansão deve-se, principalmente, às suas principais características, como baixo custo, peso reduzido, elevada resistência, variação de formas e cores, além de um desempenho muitas vezes superior ao do material antes utilizado. Não se devem subestimar os ganhos propiciados pela tecnologia. Países e empresas avançados em P&D terão imensa vantagem competitiva na retomada pós-crise, num universo econômico cada vez mais intolerante com riscos e implacável com os equívocos. Nota do Editor: Merheg Cachum é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e do Sindicato da Indústria do Plástico (Sindiplast).
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