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"Não tenho dúvida em admitir que, pouco a pouco, os partidos de esquerda irão crescendo de prestígio no país, até um dia conquistarem o poder e introduzirem, então, reformas mais radicais na estrutura política e econômica da nação. Mas isto só se dará se eles souberem conservar-se, no princípio, como partidos de esclarecimento e de vigilância, devotando-se a um lento trabalho de pesquisa dois problemas brasileiros e da educação da consciência nacional, para o que estão particularmente aparelhados por não estarem presos nem a preconceitos e nem a interesses" - Citação em 1945 do educador baiano Anísio Teixeira, ex-secretário na Bahia e ex-ministro do Brasil. Anísio Teixeira, que compartilhou exílio, e grandes momentos, com outro educador, Monteiro Lobato, tem uma das mais bonitas das histórias de alguém que pensava mudar o Brasil, e teve a premonição de antecipar a ascensão da oposição, que hoje temos, ao poder político do país. O jornalista Artur da Távola, genro de Anísio, casado que foi com Babi Teixeira, entre tantos escritos assim disse sobre os hábitos do sogro sertanejo: "... o pudor de revelar afetos, a educação religiosa, o costume de controlar impulsos, o gosto estético pelo manejo da inteligência..." Esta parece ser uma particularidade de sertanejos, o manejo da inteligência, e Anísio, como poucos, sabia disto. Tive a oportunidade de entrevistar, no centenário de Anísio Teixeira, na Fundação Anísio Teixeira, em Caetité, Baby Teixeira, mulher que nasceu por contingências em outra Bahia, às margens da Baia de Guanabara. Ela hoje divide o Rio de Janeiro com Salvador e Caetité. Foi uma das minhas primeiras das entrevistas, tremia frente à tão ilustre pessoa. Os filhos trazem um pouco do lustro dos pais, quanto mais a pérola dos olhos de Anísio, sua perfeita seguidora. Assim eu era menina a entrevistar a mulher Baby!
Costumo ler o livro "Anísio em Movimento", de João Augusto de Lima Rocha, onde traz documentários, como os acima compilados. Nele traz a famosa polêmica entre Anísio e o jornal "A Tarde", que teve direito a réplicas e tréplicas. É um assunto extenso que se quiserem mando por correio. Disse Anísio ao jornal: "Chegamos, meu caro redator, a um ponto de saturação nesse debate de nossos dias pela eqüidade social. Podemos ser capitalistas por contingência de evolução histórica, mas ninguém mais o é por convicção (...) Sabemos que a liberdade, ou melhor, o individualismo econômico do século XIX logrou-nos, melancolicamente. Prometeu-nos a liberdade". O texto, escrito ao jornal em 1949, lembra ainda que a liberdade depende de recursos e educação: "Como nenhum desses elementos existia em quantidade suficiente, a liberdade ficou para os que chegaram primeiro e o resto, o grande resto, o imenso resto ficou mergulhado na miséria e na ignorância, que são formas de escravidão", sentenciou o educador. Anísio Spinola Teixeira nasceu em Caetité, Bahia, no ano de 1900, e morreu em um acidente "nebuloso", tendo "caído" em um poço de elevador no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1971, quanto se preparava para assumir vaga na Academia Brasileira de Letras. Hoje a oposição chegou ao poder, de forma lenta como ele previu. Pena que ele nasceu antes, só para premonições. Um homem destes faz falta no ministério de Lula. Nota do Editor: Tárcila Couto Brandão é estudante de Jornalismo, 22, baiana, presta serviços free-lance ao Jornal Vanguarda.
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