Pariu na dor a fórceps rasgando sua feminilidade interna e externa. Após várias cirurgias pretendidas corretivas o aspecto externo era sofrível, mas o psíquico definitivamente destruído. Ainda teve dois filhos, só que, previsivelmente, passou a detestar sexo. Buscou na religião um derivativo para o imenso vazio da sua existência pobre. Bonita, meiga, suave, os cabelos negros quase no chão ao lado da barra da saia, só na igreja encontrava refúgio e conforto. Fazia biscoitos que o marido vendia no bairro da pequena cidade. Vivia sob a batuta do desprezo marital, que quando flagrado no vício solitário, dizia agressivamente preferir essa alternativa, a encostar-se a ela. Muitas vezes as críticas estiveram duras demais, e um dia ele a ameaçou dizendo que um travesseiro bem colocado sobre o rosto dela durante o sono a colocaria fora de combate. Foi o que bastou. Depois de vinte anos de união, pegou a sua trouxa com alguns molambos e foi embora. Para onde? Nem os filhos souberam. Tinha quarenta anos, para enfim nascer, e novamente à fórceps. Nota do Editor: Mara Narciso é médica, acadêmica de Jornalismo e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.
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