|
Dados do Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo (CVE) revelam que mais de 40% dos surtos desta inflamação no fígado ocorrem em creches no estado. Embora não apresentem sintomas, crianças infectadas podem disseminar o vírus entre funcionários, parentes, amigos e vizinhos. A coloração amarelada dos olhos e da pele (icterícia), febre, náuseas e vômitos são os principais sintomas de uma inflamação no fígado bastante disseminada no País: a hepatite A. Porém, esses sintomas não aparecem em 70% das crianças infectadas, com menos de cinco anos de idade. Aparentemente saudáveis, os pequenos doentes podem contagiar parentes, vizinhos, amigos da família. A transmissão da hepatite A ocorre pelo contato direto com um doente ou pela ingestão de água e alimentos contaminados pelas fezes de alguém infectado pelo vírus. Por concentrarem um grande número de crianças pequenas, que ainda não adquiriram noções de higiene, as creches acabam-se tornando um grande foco da hepatite A nas comunidades brasileiras, principalmente as situadas em áreas carentes de tratamento de água e esgoto. Dos 198 surtos registrados pelo Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo (CVE), nos últimos cinco anos, 84 ocorreram em creches e 43 em escolas. "Devido ao alto potencial de alastramento do vírus, a prevenção da hepatite A, somente com medidas educativas, não tem sido suficiente, porque a criança infectada pode contaminar os adultos, inclusive os funcionários das creches", afirma a médica Maria Bernadete de Paula Eduardo, diretora da Divisão de Transmissão Hídrica e Alimentar do CVE. Ao contrário das crianças, 70% dos jovens e adultos infectados apresentam os sintomas da doença, que pode exigir 30 dias ou mais de repouso. Entre 10 a 20% dos casos demandam internações por conta de complicações como mal-estar e desidratação, adverte o médico Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, professor-assistente de Infectologia Pediátrica da Faculdade de Medicina da Santa Casa. A doença pode ainda causar a morte por falência do fígado. É a hepatite fulminante que pode levar ao óbito até 2% dos adultos acima de 40 anos e 0,1% das crianças e adultos jovens que desenvolvem hepatite A. A morte, nestes casos, pode ser evitada pelo transplante do fígado. "Nos últimos 8 anos, as hepatites fulminantes causadas por vários agentes, entre eles o vírus da hepatite A, foram uma das principais causas de indicação de transplantes de fígado na Santa Casa de São Paulo", afirma o médico. Vacina elimina riscos de surtos e contágios Para a médica Bernadete de Paula Eduardo, do CVE, as medidas de higiene nas creches são necessárias, mas a vacinação contra a hepatite A é a perspectiva de controle da doença nas áreas críticas, como creches e escolas em áreas carentes de saneamento básico principalmente da Capital, municípios da Grande São Paulo, Campinas e outros grandes pólos urbanos do Estado. "O saneamento básico é indispensável, mas a vacina é ideal para eliminar riscos de surtos em espaços fechados", argumenta. A imunização é recomendada porque o vírus HVA, causador da doença, é extremamente resistente. Nem o processo de pasteurização de leite contaminado é capaz de eliminar este microorganismo que sobrevive 30 dias em alimentos secos (pães, bolachas etc.), 10 meses em frutas congeladas a 30° C negativos e 89 dias em água mineral conservada a 20° C. A vacina contra o HVA não integra o calendário oficial de vacinas do Ministério da Saúde. No início do ano, o governo federal anunciou a possibilidade de incluir a vacina no Programa Nacional de Imunização, em regiões de surto. Mesmo as pessoas que vivem em locais com boas condições de saneamento básico não estão livres da hepatite A, alerta a médica pediatra Jéssica Presa, gerente-médica da Aventis Pasteur, líder na pesquisa e produção de vacinas. "O risco de contaminação ocorre quando esses indivíduos, que nunca tiveram a doença, têm contato com pessoas de áreas com grande incidência de casos", diz a médica. O contágio pode acontecer inclusive numa mesma cidade, principalmente quando há grandes diferenças de condições sanitárias entre um bairro e outro. População de alto nível econômico é a mais vulnerável Trabalhos científicos realizados no Brasil demonstram que mais de 80% da população com alto nível sócio-econômico no País é vulnerável ao vírus da hepatite A. "Se o controle epidemiológico melhorou as condições sanitárias de boa parte das cidades, trouxe uma nova realidade ao País: uma geração que chegou à fase adulta sem ter contraído a hepatite A. E, se contaminadas, essas pessoas correm o risco de desenvolver as formas mais graves da doença", diz o médico Marco Aurélio Palazzi Sáfadi. A transmissão do vírus começa mesmo antes de a pessoa saber que está infectada. Os sintomas aparecem até 30 dias após o contato com a doença. Já a transmissão tem início 15 dias após o contágio. De acordo com o estudo "O custo da Hepatite A em adolescentes e adultos nos Estados Unidos", assinado pelos médicos JJ Berge, DP Drennan e RJ Jacobs, quando a hepatite A afeta adultos e adolescentes provoca absenteísmo no trabalho e na escola de 2 a 4 semanas. Esses mesmos estudos revelam que a Hepatite A gera perdas de U$ 2 mil no caso de adultos (com absenteísmo, compra de medicamentos etc.) e de U$ 500 a U$ 1.500 quando envolve crianças.
|