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A polêmica razoável é uma fábula. Uma história fantástica descrita em um modelo cósmico. Onde todos são iguais, tem a mesma capacidade e percepção homogênea. Os polemistas brigam com as mesmas armas. A inferioridade em qualquer das premissas exigidas para se iniciar a discussão é derrota na certa. Da mesma forma que a mentira na polêmica encurta sua locomoção por entre o discurso esgrimido. Os polemistas não mentem. Eles defendem idéias. Estas sim podem ser mentirosas. Mas como tudo tem uma justificativa (vide o fascismo e Stalin), o polemista está sempre certo. Seja ele um Carlos Lacerda, um Diogo Mainardi, um Marcelo Dolabela, um Olavo de Carvalho ou um Manoel Lobato. Alguns respiram a alma poluída das ruas de nossas regiões metropolitanas. Outros mandam seus textos do exterior. Um mais proeminente aparece em rede, no horário nobre. Sempre polemizando e cutucando nos mais recônditos preconceitos da alma nacional, jogando para o alto qualquer atitude politicamente correta. Graças a Deus. Ele é sincero, convincente e um grande polemista. Foi a polêmica que livrou Darcy Ribeiro de Montes Claros e o levou para compor a constelação de pensadores de importância de nossa cultura. Da mesma forma foi a polêmica que, durante décadas, serviu de justificativa para um exílio carioca de toda uma elite pensante Belo-horizontina. O antepenúltimo morreu no dia da padroeira. Wilson Figueiredo e Autran Dourado resistem. Só Roberto Drummond não escutou o canto de sereia, criando toda a polemica resultante de sua permanência na capital das Gerais. Com a democratização de espaços e a revolução tecnológica, os centros da polêmica foram bater em novas paragens, instalando-se a discussão onde todos eram vacas de presépio, fosse por convicção, fosse por necessidade. E graças a polêmica resultante, nossa sociedade começa a ficar de pernas para o ar. Temos MST, sem-casas e sem direitos, temos assalariados para sustentar a administração pública e deixá-la jogar dinheiro fora. Temos jornais, revistas e TV. Temos "Caras", ratinhos, leões e todo um zoológico televisivo graças a ela - a polêmica. Ela (a polêmica) é a oportunidade que temos para abrir espaços, respeitando direitos e deveres dos outros. Senão, olha aí ela instalada! Graças a ela, estamos como o diabo gosta, defendendo aquilo que nos parece direito e decente defender. E vamos continuar nessa magia negra como se fosse uma dependência química que nos permita a sobrevivência. Temos dito e fim de papo. Nota do Editor: Luiz Sergio Lindenberg Nacinovic é jornalista.
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