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Toda vez que são abertos pelo governo do Estado ou mesmo pelos Paços Municipais espalhados por esse país concursos para auxiliar de serviços gerais ou funções similares, sempre aflora em minh’alma um profundo sentimento de revolta. Não devido as pessoas que venham a prestá-los, as quais, em sua maioria, cidadãos mui honrados que foram paridos por essa mãe gentil que é nossa pátria que é vilipendiada por essa corja de cafetões e cafetinas que a exploram de maneira vil. O que me indigna é colocar minhas mãos sobre esses editais e ao passar os olhos sobre eles e perceber que para exercer funções como varredor de ruas, faxineira, merendeira, vigia etc., é exigido um nível de escolaridade mínima que na maioria dos casos é que o pretendente da vaga tenha no mínimo o Ensino Fundamental completo. Nada mais correto, visto vivermos em uma sociedade como a que temos hoje (com as devidas limitações), onde há o acesso a várias modalidades para se obter a titulação Fundamental. Nada mais coerente, visto vivermos hoje em uma sociedade que tem por base a informação e deste modo, até as atividades mais simples, como as mencionadas, exigem um mínimo de compreensão das linguagens produzidos pela sociedade moderna para assim compreender o que está a sua volta e as implicações disso em seu ofício. Entretanto, nada mais incoerente do que termos esse tipo de exigência em um país onde o Justiça Eleitoral exige dos candidatos aos cargos de prefeito e vereadores que eles apenas não sejam analfabetos. Para varrer ruas e ganhar um soldo de um salário mínimo ou um pouco mais que isso, exige-se o Ensino Fundamental completo. Para se guiar um veículo público, exige-se o Ensino Médio. Agora, para administrar os interesses e o patrimônio da população de um município, para Legislar sobre assuntos relacionados aos interesses de todos nós, basta ser capaz de responder uma provinha elaborada para crianças do quarto ano primário e assim provar que não é analfabeto. E pior, sendo eleito ele não ganhará apenas um salário mínimo, mas sim, uma cifra vergonhosamente maior, para que se diz estar apenas preocupado com o bem da RES PUBLICA. Esse tipo de incoerência é que não dá pra gente engolir. E o pior de tudo: para uma família maltrapilha poder receber um auxílio governamental como um bolsa escola ou bolsa família, precisa manter os seus rebentos na escola (ótimo). Mas, na maioria das vezes, muitas das autoridades municipais que são incumbidas de realizar tal fiscalização não sabem nem falar direito. E esse é o Brasil, um país de contrastes e aberrações.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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