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Opinião
04/11/2004 - 11h18
Cultura de botequim
Christian Rocha
 

Pense em educação. Quais imagens virão à mente? Salas de aula, bibliotecas, estudantes, professores e todo tipo de imagem escolar. Pense em cultura; quais serão as imagens? Oficinas culturais, aulas de artes, exposições e festas folclóricas. Quando se programam os investimentos em educação e cultura, prefeitura e iniciativa privada pecam exatamente neste ponto: não conseguem ir além do lugar-comum, não ultrapassam aquilo que todos chamam de educação e cultura.

Pense bem: se você lê este texto e o compreende, se você lê jornal e revista, se você vai à escola ou já concluiu o ensino médio e até chegou à faculdade, enfim, se você é culto e educado, os programas de educação e cultura não são para você, que está muito acima da média de desenvolvimento intelectual da maioria dos cidadãos brasileiros. Quem precisa de cultura e de educação é quem não tem. Crianças, por exemplo, que precisam de escola e ensino decente. Mas uma vez na escola e envolvida na longa jornada que a leva do maternal à faculdade, ela não precisa de grandes esforços oficiais para adquirir cultura; ela já começou a desenvolver dois elementos importantes na constituição de uma pessoa inteligente: interesse pelos estudos, consciência da necessidade e da importância de estudar.

Observe, por exemplo, o tipo de pessoa que freqüenta uma biblioteca pública. Você já viu gangues atuando em bibliotecas? E em escolas? Pessoas vão espontaneamente às bibliotecas públicas, servem-se daquilo que buscam, lêem em silêncio, levam um livro para casa. Há algo de inteligente nessas atitudes, não bastasse a inteligência representada pelo própria literatura.

Posso ver, aos poucos, que são dois os maiores obstáculos ao desenvolvimento da cultura. O primeiro é a obrigação de estudar, que torna odioso tudo que é relacionado a escolas e livros. O segundo é a escassez de recursos que prezem e atendam ao interesse espontâneo pela cultura. Pensando nessas coisas, ocorreram-me duas idéias.

A primeira é exageradamente utópica, mas que pode apontar soluções interessantes para a educação e a cultura deste país. Consiste em tornar as bibliotecas públicas o foco principal de todo o sistema educacional e cultural deste país. Consiste, também, em tornar livre o ensino, em oferecer os meios, mas não os métodos, não o conteúdo. Tempo reduzido em sala de aula, ouvindo uma pessoa oferecer a sua versão de um assunto; tempo estendido em bibliotecas, conhecendo várias versões de um mesmo assunto. Em vez de professores, os constituintes da cultura brasileira serão bibliotecários e pesquisadores.

A segunda proposta é levar a cultura em lugares onde ela não existe e, portanto, onde é necessário criar uma demanda cultural. Por exemplo, botequins. Em Ilhabela, boa parte dos homens adultos, trabalhadores e/ou chefes-de-família, passa pelos botequins. Lá joga-se bilhar e conversa fora, bebe-se cerveja e cachaça, passa-se o tempo e afasta-se a realidade por uns instantes. Estas pessoas ensinam suas esposas, seus filhos e seus amigos, perpetuam uma cultura ignorada oficialmente, mas que representa uma parcela importante da cultura de muitas cidades, como Ilhabela. Não tenho estatísticas sobre isso, mas basta circular nesta cidade para perceber que muitas pessoas freqüentam botequins diariamente - sem falar na grande quantidade de estabelecimentos existentes e nas pessoas que têm criado seus próprios botequins como meio de vida. Os botequins não são uma simples atividade comercial; são eles pólos de vida cultural.

A questão é modificar a cultura existente em lugares onde a cultura restringe-se ao álcool e ao jogo. Tarefa difícil, sem dúvida, mas necessária. Uns chamariam isso de elitismo, pois parto do pressuposto de que a cultura dos botequins é ruim e a cultura que se pretende oferecer - expressa em livros, sobretudo - é boa. Pois não se trata de elitismo, mas de perceber a importância do conhecimento e da disponibilização de recursos educacionais. Pessoas que preferem beber e jogar bilhar a ir a uma biblioteca muitas vezes não imaginam o que pode ser descoberto num livro. O máximo da leitura a que têm acesso são os jornaizinhos produzidos pela imprensa marrom - literatura ruim com idéias ruins. Trata-se de oferecer, não de obrigar. Trata-se de mostrar que a realidade pode ser diferente, não de lhes empurrar uma realidade.

A educação oficial segue um caminho que eu gostaria de evitar. Além de tornar o ensino obrigatório, gasta dinheiro, tempo e trabalho construindo sistemas de ensino. Não muda a base do ensino. Não ensina o conhecimento e o pensamento, apenas métodos, fórmulas, procedimentos prontos para acionar engrenagens. A única crença que me põe a estudar é a de que a vida é um pouco mais do que o binômio ação-reação. Isto, qualquer jogador de bilhar pode perceber nas bolas que correm sobre o pano verde...


Nota do Editor: Christian Rocha vive em Ilhabela, é arquiteto por formação, aikidoka por paixão e escritor por vocação. Seu "saite" é o Christian Rocha.
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