| | | Arquivo UbaWeb |  | | | | Trecho da rua Dona Maria Alves, onde se encontrava o Hotel Felipe, antes da demolição para alargamento da rua. |
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Só conhecera Ubatuba em umas poucas incursões rápidas feitas desde São Paulo em um jeep alguns anos antes, mas isso já me deu uma juvenil confiança para empreender a noite a viagem por mar desde São Sebastião. O barco, alugado de um amigo, era um pequeno (6,5 m de comprimento) e velho bote de pesca impulsionado por valente motor diesel de 10 HP, e a bordo dele eu saíra de Itapema, no canal de Santos, alguns dias antes. A intenção era curtir as férias daquele verão de 58 conhecendo paisagens novas ao norte do Estado. Convidara para compartilhar da empreitada um bom companheiro de velejadas na represa de Santo Amaro, o Jorge Bruder, que depois viria a se tornar três vezes campeão mundial desse esporte, e a caminho da disputa de mais um título, em plena glória esportiva, teria um fim trágico no tristemente célebre desastre com o avião da VARIG em Orly. Estive com ele, lembrando estes velhos tempos, na véspera do embarque, e então a sensação de perda foi ainda maior. Navegar à noite entre os portos era uma escolha para aproveitar melhor os dias pescando de mergulho, o dinheiro era minguado para dois estudantes em férias, vender o peixe era nossa maneira de arranjar alguns trocados. Não tínhamos qualquer mapa ou carta náutica, e isso tornava a travessia mais perigosa, mas chegamos à Ponta Grossa sem maiores problemas. O mar estava deitado, e agora nos aproximávamos da barra do rio que eu sabia existir ao fim das lâmpadas que marcavam as poucas casas da avenida da praia. Deus protege os inconscientes, e assim, naquela noite escura, nos esgueiramos entre aquelas pedras desconhecidas e adentramos tranqüilamente o rio Grande de Ubatuba. Amarramos o barco à margem, a ilha do rio era ainda um grande descampado junto ao centro da cidade, ali seria nossa base, ali dormiríamos nos dois meses seguintes. Ubatuba era pouco mais que uma vila espreguiçada à beira-mar. Escassos veranistas, todos logo se conheciam. O programa das manhãs era ir à praia do Perequê-Açu, ou ao mais distante Tenório onde ainda era possível erguer uma barraca escondida no meio de jovens abricoteiros, solução para os que viajavam desprovidos. Para quem tinha dinheiro existiam umas poucas hospedarias, e uma boa pedida era o velho Hotel Felipe. Atravancando a rua Maria Alves, sobre a qual se projetava estreitando-a, seria mais tarde demolido. Com ele se foi o célebre orifício na porta do banheiro do corredor do sobrado, por onde, agachados do lado de fora, nossos olhos ávidos buscavam as partes íntimas das moças a se ensaboarem debaixo da ducha. Logo mais cruzaríamos com elas ali mesmo no hotel ou na praia, nós meio sem graça, sentindo-nos um tanto culpados, elas sem saber que as conhecíamos tão bem... A existência deslizava lenta e tranqüila. O sol, o sol, umas chuvas rápidas. À tarde, depois da praia, das pingas e de eventuais banhos gelados nas cachoeiras da serra que emoldura a cidade, ia-se à barra ver os peixes tirados das canoas que voltavam da faina no mar, ou tentávamos nós mesmos pescar uns peixinhos à margem do rio de águas então límpidas. Já à noite a escolha era entre o Rancho do Galo e a boate da Vera. Ou ainda simplesmente sentar junto à praia e ouvir num violão as músicas da época e de sempre. Namorar, quem sabe buscar a escuridão junto ao mar onde, quando não dispúnhamos de uma boa toalha ou manta, a areia, imiscuindo-se em tudo, era participante intrusa do ato amoroso. Não era um ato sexual. No romantismo ingênuo da época, era sempre um ato amoroso... E assim, alternando essa mansidão modorrenta com pescarias no parcel Patieiros, na Rapada ou na Mofina para termos o que comer e vender, o tempo escoou-se, e, já com saudades daqueles dias felizes, levantamos ferro rumo a Santos na volta a São Paulo, eu ao trabalho, ele às aulas. Retornaria a Ubatuba, muitas e muitas vezes, para finalmente deixar a cidade onde nascera, a capital outrora pacata que inchou numa metrópole inviável, e aqui me fixar definitivamente. Mas naquele momento, sentado ao leme do barquinho e vendo o velho casario e a igreja da praça diminuírem para finalmente sumir ao longe, sabia que ali estava terminando o melhor verão de minha vida. Nota do Editor: José Jacyntho Pereira de Magalhães Netto, natural de São Paulo, nasceu constitucionalista e mantém-se revolucionário e poeta até hoje. Pioneiro em cursos de mergulho, fundou o Tamoios Iate Clube em 1967. Foi Secretário de Turismo (1970), membro do Conselho do Plano Diretor e nosso representante no Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro.
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