|
Uma das formas de Deus revelar a Sua existência é, sem dúvida, o auxílio prestado em situações de extrema dificuldade, sofrida por um povo inteiro ou por indivíduos isoladamente. Quem não se lembra da menção bíblica à abertura do Mar Vermelho para a passagem dos hebreus, ou ao ressuscitamento de Lázaro? Pois a providência divina acaba de se fazer sentir uma vez mais, e de forma duplicada, em curtíssimo espaço de tempo. Em um intervalo de apenas três dias (número de forte significado para os cristãos), Ele livrou dois povos inteiros de uma catástrofe cujas proporções seriam inimagináveis, permitindo, a um só tempo, a derrota do PT no Brasil e a vitória de Bush nos Estados Unidos da América. Fossem outros os resultados das urnas lá e aqui, Deus estaria definitivamente desempregado, já que os adversários políticos em um e outro país sempre apregoaram que iriam criar "um mundo melhor". A questão é emblemática. Se o PT e Kerry tivessem obtido a maioria dos votos, aquele seria reforçado por este, e nós, aqui no Brasil, não teríamos mais a menor chance de sobreviver a um regime de características nitidamente totalitárias. Os norte-americanos, por seu turno, passariam a sofrer doses maciças de ideologia imbecilizante - como essa que nos assola há tantos anos -, e fatalmente acabariam tão entorpecidos por ela quanto nós, pobres brasileiros, já estamos. Agora há chances concretas de mudança de mentalidade e não podemos perdê-la, sob pena de, como na fábula do menino e do lobo, não mais sermos ouvidos em outro pedido de socorro. Não falo aqui de uma mentalidade boba e crédula que se apóia em soluções messiânicas para os problemas nacionais, mas sim daquel´outra, que nos permite ter os pés firmes no chão, para atacar esses problemas com seriedade e, sobretudo, com responsabilidade. E ainda dizem que o povo não sabe votar! Sabe sim, senhor. Quando consegue enxergar o perigo que o ronda, o povo certamente escolhe logo o caminho da segurança, na atitude instintiva de conservação da própria espécie. Para ele, não há essa divisão estamental que a mídia e os intelectualóides insistem em demarcar, com o objetivo único de obter os votos dos pobres mediante a exploração de sua fé em um salvador plenipotenciário, e os dos ricos pelo sentimento de culpa que lhes incute pela condição em que se encontram esses pobres. Culpa essa, diga-se de passagem, que somente pode ser atribuída aos próprios governantes, já que a eles cabe, com os impostos recolhidos de todos - ricos e pobres - prover o bem-estar comum. Mas bem-estar comum, senhores, não significa, como se pretende fazer crer, a distribuição da miséria com o gradativo empobrecimento dos ricos. De dinheiro, cada um deve cuidar pessoalmente. O que importa, isto sim, é dar meios para que todos, indistintamente, possam chegar aonde desejam sem interferências quanto às metas ou quanto aos meios individualmente estabelecidos para tanto. Bem-estar comum é trabalho - não apadrinhamento -, é segurança - não a proteção de bandidos -, é a oferta de real infra-estrutura - não a sua maquiagem -, é a respeitabilidade das instituições - não o seu achincalhe -, é o incentivo à criatividade - não o seu aprisionamento a fórmulas pré-estabelecidas pelo Estado. Nesses últimos dias o brasileiro e o norte-americano deram lições ao mundo, até mesmo à velha e carcomida Europa - "mulher deslumbrante e caprichosa" -, que merecem ser aprendidas e assimiladas. Ambos os povos deixaram muito claro que não mais estão dispostos a aplaudir a ladainha da empulhação ideológica do redistributivismo, da barretada com o chapéu alheio, da distorção do pensamento lógico. Disseram, em alto e bom som, que não mais admitirão a pública e notória falta de respeito à inteligência humana. Se é verdade que milagres existem - e disso tivemos prova esta semana - não menos verdade é que Deus, independentemente da cor de seu passaporte, é brasileiro e norte-americano. Deus tem dupla nacionalidade. Nota do Editor: Marli Nogueira é Juíza do Trabalho em Brasília.
|