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Certa vez, em conversa com um professor de minha seara que reside e leciona em Curitiba, comentava comigo que duas de suas alunas pediram demissão de seus respectivos empregos após terem realizado um trabalho que ele havia solicitado em sua disciplina - História Contemporânea. O trabalho que causou tamanha crise existencial nas incautas jovens era simplesmente o de realizar a leitura seguida de uma resenha do livreto O Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels de 1848. Não só este amigo de longa data solicita para seus alunos de graduação a leitura e mesmo o estudo deste texto, como muitos outros também o fazem. Tal atividade, de minha parte creio ser de grande relevância para se poder compreender alguns aspectos basilares que minaram a centúria passada e que tiveram como inspiração as palavras que se encontram neste livro largamente vendido no Brasil e no mundo. Porém, o que causa-me grande estranheza é o fato de nunca ter visto um professor de minha seara solicitar para que seus alunos lessem e resenhassem a obra O Caminho da Servidão do economista da Escola Austríaca de Economia Friedrich August von Hayek, publicada pela primeira vez no ano de 1944, ou seja, a 60 anos passados. Como também lembro-me que participei de um evento organizado por estudantes de história em 1998 por ocasião dos 150 do Manifesto Comunista, entretanto, passou-se o ano e a faina acadêmica desta terra de desterrados manteve-se calada diante deste acontecimento dos 60 anos de O Caminho da Servidão. Caberia, creio eu, uma singela indagação: o por que de não se organizar um debate sério sobre esta obra em seu sexagésimo aniversário? A primeira hipótese seria simples: a maioria das pessoas que passam pelas universidades brasileiras desconhecem por completo quem foram e o que pensavam Hayek, Mises, Sorman e tutti quanti, isso sem falar que ao contrário de O Manifesto do Partido Comunista, que é publicado e republicado por várias editoras e disponibilizado em praticamente todas as bibliotecas, O Caminho da Servidão, atualmente, é apenas publicado na língua mátria pelo Instituto Liberal do Rio de Janeiro. Bem, como ler-se um livro barrado nas prensas do mercado editorial? Como conhecê-lo se raríssimos são os professores que recomendam a sua leitura? Casando com a primeira hipótese, podemos levantar outra: por que essa barreira para a publicação de um livro tão fundamental, julgo eu, quanto o outro para compreensão da história recente da Civilização Ocidental? Alias, não é engraçado que em um país em que todos dizem estar sob a ciranda do dito "neoliberalismo" e, ao mesmo tempo, as mentes que passam pelas cátedras saem de lá sem folhar essa obra, sem conhecer os Triângulos de Hayek ou a teoria dos Ciclos Econômicos da Escola Austríaca de Economia, sem compreender o que o mesmo chamava de ideólogos construtivistas e as mazelas geradas por eles? Pior que isso, é folhearmos um livro sobre a história do pensamento econômico como o de Paul Hugon - presente em muitas bibliotecas e muito utilizado - e vermos que este conclui as suas laudas simplesmente com longas páginas dedicadas a Keynes, omitindo por completo os economistas da Escola Austríaca que teceram interessantes críticas aos Marxistas e socialistas de um modo geral e aos intervencionistas a moda kenesiana. Aí eu pergunto, o por que disso? O que há de tão grave, de tão letal neste senhor e nos seus pares de Escola de Estudos que tanto assusta a intelectuaria tupiniquim? Será que O Caminho da Servidão é um livro tão indigno de se encontrar nas estantes das bibliotecas ou não seria boa parte de nossa intelectuaria que apresenta-se de maneira indigna e mesquinha a tal ponto que procura ocultar as obras que lhes acusam de seus crimes e principalmente, de sua má fé? Bem, amigo leitor, faça a prova, procure a referida obra e leia-a e compreenda o porque de silêncio a sua volta.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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