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Estudantes de uma faculdade de Teologia, avaliados em pesquisa, demonstraram ter um relacionamento inseguro com os pais, o que é freqüentemente associado a sintomas depressivos.
O forte apego à religião não elimina muitos dos traços de depressão e fobia. Uma pesquisa apresentada ao Instituto de Psicologia (IP) da USP analisou os traços psicológicos de 192 estudantes de uma faculdade de Teologia adventista e verificou que há, entre os avaliados, indícios de fobia social e relacionamentos inseguros com os pais. Em estudos anteriores, o fato é associado a sintomas de depressão. O psicólogo Florival Scheroki aplicou aos estudantes questionários que avaliavam estilos de apego à figura de Deus, relacionamento interpessoal e nível de segurança construída - confiança, comunicação e proximidade emocional - na relação com os pais. Os adventistas se caracterizam, basicamente, por serem cristãos do ramo protestante (surgidos em meados do século XIX nos EUA) e enfatizarem o cuidado com a saúde corporal e a educação. Cerca de 70% dos estudantes apresentavam o que se pode chamar de um apego "seguro" à figura de Deus, considerando-o próximo e atencioso. Os demais mostraram uma posição ambivalente, de que Deus é ora próximo, ora distante. Não houve respostas que mostrassem uma posição "evitativa" (de distanciamento completo), típica de ateus. "Devemos considerar que o contexto - de freqüência a uma escola religiosa - pode influenciar as respostas", ressalta o pesquisador. No que se refere a relacionamentos interpessoais - estilos de apego a pessoas significativas -, 31% se diziam ambivalentes (seguros em certos momentos e apreensivos em outros), 34% seguros, e 35% rejeitadores ou medrosos. Mas o que chamou a atenção do pesquisador foi a medição do nível de segurança no relacionamento com os pais: 41% apresentaram um nível médio de segurança, 32% um nível alto e 27% um nível baixo. "Esse resultado merece destaque por ter uma grande correlação com índices depressivos", aponta Scheroki. O questionário avaliou fatores como qualidade da comunicação com os pais, taxa de confiança e nível de afastamento emocional. Os estudantes deveriam aplicar uma escala de validade a afirmações como "Meus pais respeitam meus sentimentos" e "Meus pais me ajudam a me entender melhor". Fobias Também foram analisados os índices de agorafobia (insegurança ao se ver sozinho em certas situações) e fobia social (ansiedade diante de contatos sociais). O pesquisador constatou que, entre os avaliados, predominam os traços sociofóbicos. "De um lado, eles têm medo do contato humano. De outro, o fato de estarem sozinhos numa situação os assusta menos, provavelmente por considerarem ter uma espécie de ’companhia de Deus’, que lhes dá segurança", afirma. O psicólogo explica que não existe uma relação significativa entre o estilo de apego à figura de Deus e os índices de depressão e fobia. Contudo, a ligação desses índices com o nível de segurança no relacionamento com os pais enriquece a análise quando se considera que "Deus" tem as mesmas características das nossas figuras de "apego primário" - geralmente, o pai ou a mãe. Esse "apego" adquire maior visibilidade em situações de estresse e ameaça, quando nos voltamos com maior freqüência para o que Scheroki chama de nossos "portos seguros" (pais, Deus, entre outros). Nesse sentido, Deus pode se tornar uma figura substituta da figura primária e criar um grau elevado de segurança individual.
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