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"Há apenas uma propriedade pública no Brasil: a privada. A pública é de ninguém". (Roberto Campos)
Esse ano estamos celebrando 115 anos de experiência republicana no Brasil. Anos esses recheados de intempéries mil. Inúmeros golpes de Estado a começar pela própria proclamação da República que nada mais foi que um golpe militar. Fora isso, ao invés de termos o término dos vícios que perpassavam o dia a dia do poder durante o Império como sonhavam os republicanos idealistas que em 1870 fundaram o Partido Republicano, tivemos sim, o aprofundamento e aprimoramento destes no correr dos tempos que além de termos a sociedade brasileira sendo vilipendiada mais e mais por uma casta burocrática selvagem. Essa mesma aprimorou a maneira de se proceder com as práticas patrimonialistas que vem-nos dopando desde a vida dos primeiros europeus que habitavam as terras lusas. Também, se formos refletir sobre o caráter dos republicanos que idealizaram a República Brasileira claramente veremos que nada deixam a desejar na leviandade diante dos que hoje integram as cadeiras altas desta RES PÚBLICA em que todo mundo sonha em colocar a mão na cumbuca. Durante ainda o correr do Segundo Reinado, era comum ver-se os militantes republicanos tecerem bravatas contra o Império e depois, na surdida, irem ao encalço de D. Pedro II solicitar-lhe que lhes concedesse algumas facilidades como um cargo burocrático aqui, um emprego acolá o que, fazia este monarca dos trópicos rir de seus tacanhos críticos. Por sua tolerância frente aos seus republicanos, renderam-lhe o título de "o maior republicano da América do Sul", conferido pelo presidente estadunidense Roosevelt, devido a mencionada tolerância frente a partidários deste modo de governo. Alias, durante o Segundo Reinado, nenhum jornal republicano fora fechado por ordem do Imperador em um ato de censura. Entretanto, logo no primeiro ano de República, vários jornais monarquistas sofreram esse tipo de sanção. Alias, essa dualidade de caráter até os dias de hoje perdura em nossa pátria de gastas chuteiras. São os petistas criticando a prática da negociata ou, também como é chamada, de "balcão de negócios" no Congresso Nacional e logo em seguida fazendo o mesmo, mas, dando um nome mais charmoso: o de "negociações pontuais". Como também, à destra patrimonialista, vemos criaturas similares a afirmarem que o mais importante é que o governo vermelho mantenha e preserve a regularidade de Lei, apesar de esses apenas preservarem a Letra desta como um ardil diabólico para melhor acobertar as suas cretinices. Não? Vai ver então que eu esteja falando do Reino de Ávila. Isso sem falar na censura que dia após dia vem se aprimorando de maneira tal que faz com que os tiranos pretéritos se morderem de inveja em meio as labaredas do inferno. Antes, nos primórdios da República, se fechava um jornal simplesmente na base da pancada. Mais tarde, temos a continuação do uso da porrada, mas através de um organismo oficioso: o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, do Estado Novo) e o AI - 5 do tempo da República Verde-oliva. E hoje, mais discreta do que nunca e, obviamente muito mais eficiente: um Conselho Federal proposto por alguns indivíduos da seara jornalística e que juram de pés juntos que não tem nenhuma ligação política com o governo atual. Enfim, é fato que a história é sempre escrita com sangue, suor e lágrimas. Porém, no caso da história da experiência republicana no Brasil, além disso, temos um boa dose de cinismo e principalmente a ausência daquilo que tanto os Republicanos Romanos prezavam e que sucumbiram quando de sua ausência, que, nada mais seria que a firmeza de caráter que tanto carecem nosso representantes públicos e, que tanto nos falta para aprendermos a garrar vergonha na cara e nos portarmos como legítimos cidadãos de um RES PÚBLICA de fato, não mais meramente essa de nome como tem sido nos últimos 115 anos neste país.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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