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"Se pudermos impedir o Governo de desperdiçar o trabalho do povo, sob o pretexto de cuidar dele, este será feliz". (Thomas Jefferson)
Há algum tempo atrás, quando iniciava minha carreira no magistério, lembro-me de ter desenvolvido um trabalho com os alunos do Ensino Fundamental sobre as instituições políticas do Estado Brasileiro, em especial as prerrogativas dos poderes constituídos a nível local, no Município. Questões simples como: quais as obrigações de um Prefeito? Qual o papel que deve ser desempenhado por um Vereador? E por aí foi. Dentre os trabalhos preliminares que solicitei, pedi para que expressassem o que eles pensavam sobre as funções de ambos os poderes, surgiram algumas observações interessantes como a que segue, onde a aluna diz: "vereador é uma pessoa que ganha um monte de dinheiro para não fazer nada". Obviamente, uma concepção errônea, frente aos cânones teóricos sobre o tema. Entretanto, se formos tomar como referência o real desempenho dos Edis de sua civitas e em inúmeras outras Brasil afora, o que nós encontraremos? Provavelmente pessoas que nem de longe compreendem a complexidade do cargo que estão a ocupar, mas sabem muito bem da importância de seu polpudo soldo (lícito e ilícito) para a manutenção de seu status quo. Essa gente até tenta posar de maneira séria, mas não conseguem convencer, visto que a representação não se dá unicamente pela mera escolha, mas sim, através desta dentro de um determinado contexto cultural onde esse indivíduo foi formado. É difícil termos representantes que conduzam seus atos de maneira racional/legal, sendo que os critérios que movem os cidadãos a escolherem os seus representantes são na maioria das vezes critérios irracionais/afetivos. Por isso, se formos comparar o comentário da jovem aluna com as justificativas do voto dos cidadãos, perceberemos que essa nada mais teve que uma perfeita constatação da realidade dos fatos, uma legítima ponderação sociológica. Vejamos que nos falaram os sapientes cidadãos no correr do último pleito: "A gente deve votar em quem a gente conhece, que seja da nossa terra"; "Eu vou votar em fulano por que é meu padrinho"; "Eu vou votar em sicrano por que é o menos ruim"; "Eu não vou votar nesse cara porque ele não comprou em minha loja"; "eu votei nesse porque ele é companheiro nas festas"; " porque ele me ajudou em uma hora que eu precisava muito dele"; e por aí seguem, de maneira deprimente, o andor politiqueiro brasuca. Como se pode esperar seriedade na vida pública sendo que não há menor seriedade na escolha dos que vão ocupar as cadeiras do Poder Legislativo para nos representar? Bem, talvez esses não sejam simplesmente os governantes que nós merecemos, mas sim, para infelicidade geral da razão, os governantes que desejamos.
Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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