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Eduardo Galeano, em conhecida e reverenciada reflexão sobre a utopia, escreve: "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar". Impressionante, não é mesmo? O que o escritor uruguaio afirma coincide com algo que a experiência nos ensina: a perfeição deve ser buscada, mas nunca será atingida. Sempre haverá uma distância entre ela e a realidade. Caberia ponderar, então, se a utopia não cumpre, no pensamento e na ação política, o papel desse anseio que nos induz a buscar a perfeição mesmo sabendo-a inatingível. Para que possamos chegar a uma conclusão sobre tal pauta, torna-se necessário verificar se a tal caminhada produziu ganhos qualitativos em relação à realidade a que a utopia se opunha. Caso contrário, ela terá sido apenas cenário, ilusão a encobrir um objetivo errado. Ora, é impossível desconhecer que o comunismo ou o socialismo, como horizonte da utopia que seduz Galeano e seus companheiros, levou a humanidade a algumas das mais perversas realidades do século XX. Mais de cem milhões de seres humanos morreram e incontáveis outros apodreceram nas prisões, nos gulags, nos campos de concentração, em nome do horizonte em cuja direção Galeano convida seus leitores a andar... Os regimes em seu nome constituídos caíram de pobres e podres. Pois que vá solito, o Eduardo. Prefiro tomar como referência os grandes estadistas que fizeram avançar seus povos com democracia, liberdade, realismo, pés no chão e valores elevados. O que acabo de expor também explica, em boa parte, a desilusão que se abateu sobre parcela decisiva dos eleitores neste pleito de 2004. Durante duas décadas certo partido os seduziu confrontando a realidade em que vivem com o cenário de sua utopia. Repetidamente apontei para o embuste envolvido nessa estratégia onde embarcou e naufragou parcela significativa da intelectualidade nacional: comparar realidade com utopia é um desacato à Razão. Só se pode comparar idéia com idéia e realidade com realidade. E a coisa fica muito pior quando se descobre que o horizonte da utopia não passa de um reles cenário. Para muitos eleitores, pelo menos, a ficha, finalmente, caiu. Nota do Editor: Percival Puggina é arquiteto, político, escritor e presidente da Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública.
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