|
Entrou na redação mal-humorado. Calor, trânsito complicado. Uma vontade imensa de estar numa praia de águas límpidas e tranqüilas. Molhando o corpo e refrescando a mente. O colega, ainda mais irritado, grita: "seu heterossexual". Olha em volta e percebe que o xingamento era para ele. Isto não admitia. Sempre teve orgulho da sua sexualidade. Por que as pessoas sempre implicam com quem gosta de pessoas do sexo oposto? Estava cansado. Era sempre assim, apesar de já ter conseguido se impor em diversos lugares. Quem disse que o "normal" é homem com homem, mulher com mulher? Pensou em partir para a agressão. Hesitou, desistiu. Resolveu relevar. Desde pequeno sofria com este tipo de preconceito. As pessoas não aceitam as diferenças. Só pensam em sexo sem procriação. Mas ele sempre se aceitou. Sempre olhou para a mulher com olhos de desejo. E se pegava eternamente excitado. Já tinha lido livros de auto-ajuda. Tentou entender o desejo e explicar diversas vezes. E de diversas formas. Chamam de orientação sexual. Alguns teóricos defendem a tese da genética, já outros preferem a da educação, da formação social. Não importa. O que conta é o que está latente. O que vibra. Seguiu adiante. Sabia que gostar de pessoas do sexo oposto não era aceito, mas era o que seu corpo pedia. Não tinha jeito. Mas por que a agressão na chegada ao trabalho? O outro, com a roupa que parecia costurada no corpo, e aquela velha postura de "sou normal, você é um doente". Faz uma cara de desdém e segue ouvindo Bethânia. Parece dizer "você devia era transar com homem pra ver como é bom". Decidiu reverberar. Encheu o peito de coragem e soltou o velho clichê "miltoniano": "qualquer maneira de amar vale a pena". Risada geral. Piadinhas grotescas e o preconceito estampado em cada detalhe das falas e dos gestos. Outro colega tenta amenizar: "ele é hetero, mas é gente boa". Melhor teria sido xingar mesmo. Nada pior do que ter que justificar desejo sexual. Ser aceito desde que isso, desde que aquilo. Não interessa com quem você deita... e acorda... e beija... e ama. O que conta é o gozo. E este deve ser inteiro e prazeroso. É para isso que o sexo serve. Pensou bem e teve pena do colega. Tinha mesmo pena desse pessoal que se preocupa com a sexualidade alheia. De quem tem tantas certezas. Se soubesse que tipo de sangue corre na veia de um hetero. Por mais paradoxal que pareça, é preciso ser muito macho para ser heterossexual. Nota do Editor: Eugênio Afonso é jornalista.
|