| | | Memória Viva |  | | | | A primeira edição de Cruzeiro (sem o artigo) em 10 de novembro de 1928. A direita capa da segunda edição. |
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Para quem não sabe, a revista O Cruzeiro foi criada em 1928 e em suas páginas colaboraram os mais importantes jornalistas, políticos e escritores do Brasil. Editada e impressa no Rio de Janeiro, a revista circulou semanalmente por cerca de 40 anos, havendo desaparecido na década de 1970. Tendo uma pequena coleção do hebdomadário - embora realmente eu não saiba se o termo se aplica às revistas semanais - numa nostálgica remexida nos velhos e amarelecidos exemplares tentei atiçar a memória, revendo antigas reportagens. Aqui registro algumas impressões dessa "viagem". Uma edição do mês de dezembro de 1962 abre com a sempre esperada crônica de David Nasser, o polêmico jornalista - e também compositor de músicas de grande sucesso no seu tempo - que ali trata da questão do patriotismo, num longo artigo em página dupla, intitulado "Prece aos burros", que assim principia: "O burro é o maior patriota do Brasil. Quem o vê, paciente, orelhas em pé, passo firme, abrindo terras, economizando divisas, arando..." Grande David Nasser! Sua presença semanal em O Cruzeiro foi uma das marcas do jornalismo no Brasil e, por mais de uma vez, causa de crise política. Continuo a "pesquisa" me deparando com Jango Goulart, então presidente da república, que aparece numa cerimônia de lançando da campanha pelo plebiscito de 1963, onde se pedia a volta do regime presidencialista. Na foto que ilustra a matéria, vê-se o velho Jango sentado entre os governadores de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente Carvalho Pinto e Magalhães Pinto. Cerca de dois anos mais tarde, Magalhães Pinto seria figura fundamental na articulação do golpe militar que derrubaria Jango do poder, mas isso é uma outra história. No exemplar de 12 de março de 1966, dedicado ao carnaval do ano, a figura multicolorida e triunfal de Clóvis Bornay, com a fantasia "Sua majestade o Rei Samba", premiada que foi nos salões do Hotel Glória. Coisas daqueles tempos em que fantasia e realidade pareciam estar mais próximas. Chama ainda atenção neste número de O Cruzeiro a reportagem do casamento do nosso rei Pelé com Rosemary Reis Cholbi. Rosemary virou Rose; Pelé se casou outra(s) vez(es) e nos dias de hoje anda metido em confusões com a Receita Federal. Naquele tempo eu desconhecia muita coisa deste vasto mundo, inclusive a acima citada Receita Federal. Deixando de lado as revistas, fica comigo a saudade, que inclui a semanal visita ao único jornaleiro da cidadezinha do interior de São Paulo, onde religiosamente eu comprava o último exemplar de O Cruzeiro. Parece que todos nós éramos mais felizes. Nota do Editor: João Luiz Costa Cardoso nasceu em Paraguaçu Paulista, SP, sendo médico dermatologista do Instituto Butantã e atuando em Ubatuba desde 1997. É um dos autores do livro "Animais peçonhentos do Brasil".
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