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Opinião
25/11/2004 - 10h31
Traidor?
Dartagnan da Silva Zanela
 

E o presidente foi vaiado, insultado, viu sua pessoa ser alvo de ovos, tomates e outras coisas mais e, em resposta diz aos manifestantes que ele nunca se oporia àqueles que lhe gritassem pelo fato de ele já ter gritado muito, mas o que era triste ter de ver pessoas estarem gritando sem saber ao certo sobre o que elas estavam gritando.

Enfim, uma frase lúcida dita pelo senhor Presidente da República. Isso mesmo, uma afirmação lúcida. Esses jovens estudantes universitários e bem como boa parte dos que criticam o atual Presidente não sabem o que dizem quando o tacham, a ele e seus ascetas de traidores de seus "belos ideais".

Esses podem se indagar indignados: "Como assim! Lula está dando continuidade as políticas neoliberais do governo FHC!" Isso é que dá resumir a compreensão dos jogos de poder a uma reris sociologia de botequim. Para começo de conversa nunca leram, provavelmente, uma obra de um intelectual liberal para constatar que a última coisa que FHC poderia ser era um liberal.

Em segundo lugar nem Lula e muito menos o seu antecessor, o senhor Fernando Henrique, traíram os seus projetos, os seus ideais. Apenas se está a implementá-los de uma forma diferente, não mais pelo velho e capenga viés revolucionário, direto, com barricada e coisas do gênero, mas sim, através da revolução silenciosa, ou, para ser mais preciso, através de uma revolução cultural gramsciniana.

O teórico do processo revolucionário que está a pairar por essas plagas não é Lênin, mas sim Gramsci. É claro que para muitos estarei eu falando aramaico, visto que, também todos acham que a política das pedras altas se resume apenas na mera negociata dos balcões de negócios, por isso traduzamos essa linguagem luciferiana em miúdos nada angelicais.

Bem, o que é a tal revolução cultural apontada por Gramsci enquanto uma estratégia para se obter o poder? Em síntese, seria não a tomada direta do poder, mas sim, a lenta e gradual tomada deste. Segundo este, dever-se-ia ter que tomar a hegemonia cultural, infiltrando-se nas instituições que produzem os valores culturais da sociedade para assim transmutá-los, coisa que, já de longa data se visualiza nas redações de jornais, no conteúdo dos materiais didáticos, nas universidades, nas Igrejas, enfim, nos veículos de produção e circulação de informações.

Ao mesmo tempo, dever-se-ia ter que se ir infiltrando gradativamente nas engrenagens do Estado, de maneira sucinta, gradual, tendo-se juízes, promotores, funcionários etc. Doravante, todos esses indivíduos não necessitariam ser filiados ao partido e nem mesmo apóia-los, basta que defendam as mesmas idéias que eles defendem e pronto, tem-se gradativamente a transmutação dos valores da sociedade, onde Che Guevara é tratado como herói por cineastas e mártir por padres, professores e pela Rede Globo; onde espiãs da KGB que ajudavam a acobertar inúmeras atrocidades viram heroínas que apenas sonhavam com um mundo melhor, onde ditadores totalitários e terroristas tornam-se modestos e generosos defensores de "seu povo". É comum já nos dias de hoje vermos pessoas tidas como conservadoras defenderem valores e projetos essencialmente socialistas marxistas apesar de combaterem marxistas e tutti quanti.

Por isso digo, o senhor presidente não está traindo os seus ideais jovens estudantes indignados, fiquem tranqüilos quanto a isso. São vocês que estão traindo o que deveria ser uma Formação Superior, onde vocês deveriam se dedicar aos estudos de maneira séria e não meramente decorar determinados jargões politicamente corretos aprendidos de uma militância partidária. Se esses jovens que lá estavam tivessem feito isso, jamais gritariam de maneira histérica contra o senhor Luiz Inácio.

E, se conhecessem bem as palavras do ideólogo italiano entenderiam que tal gesto em nada prejudicou os planos do grupo que está no poder e pretende se perpetuar, pelo contrário, visto que, gestos como esse eram visto de maneira positiva, pois, dissimula uma oposição que na verdade está do mesmo lado da situação, do mesmo modo que a sociedade imbeciVIL não percebe que as grandes siglas partidárias são todas de esquerda ou centro esquerda e assim, confunde a sociedade evitando que percebe os planos políticos destes a longo prazo. Alias, desde quando a nossa sociedade é capaz de perceber alguma coisa em longo prazo?


Nota do Editor: Dartagnan da Silva Zanela é professor e ensaísta. Autor dos livros: Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos - ensaios sociológicos; mantém o site Falsum committit, qui verum tacet.
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