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De agora em diante, todas as vezes que alguém me disser que um determinado elemento é bandido porque é negro e pobre, terei como contra argumentar. Pois nunca vi desculpa mais esfarrapada. Dia 20 foi o Dia da Consciência Negra e ainda está em tempo de falar sobre essa raça forte. Forte não só pela robustez física, mas principalmente por suportar os trancos da vida, desde a degradação de seu povo trazido para um novo mundo em porões de navios, como escravos. Conheço no meu percurso de vida tanta gente pobre que venceu, muitos negros, que honram a cidadania e servem de exemplo bom para nossa trajetória. Não citarei a mim mesmo para não advogar em causa própria, e também para que não aleguem que venci porque sou branco. Também fui pobre, menino quase de rua, e, para quem não sabe, perambulei muito nas noites do meu Rio de Janeiro e aos 16 anos era garçom na extinta Leiteria Bol, no bairro da Lapa, onde àquela época era zona boêmia! Nasci em berço tosco, mas tenho bons amigos que nem em berço nasceram, de tão pobres suas famílias e que superaram honestamente todas as barreiras. Os exemplos são muitos, e neste momento vejo passar em frente a minha redação o "Pretinho" da Banda Xaveco, de grande sucesso na região, do qual recentemente tomei o depoimento de vida. "Éramos pobres demais, ainda somos, mas agora menos". Ele, junto a um irmão e uma irmã, se dedicou à musicalidade e hoje têm além de sua banda o seu próprio estúdio de gravação. Um dos mais disputados dos criminalistas do Sertão Baiano, presidente da subseção Guanambi da OAB, requisitado para grandes júris, advogado Custódio Lacerda Brito é negro, tem origem pobre, e junto ao irmão Clarindo, este juiz de direito, é um exemplo claro de que quem quer vence. Quando Custódio fala o público fica imobilizado, boquiaberto com a viagem nas leis e jurisprudências. E hoje tive a alegria, melhor dizer felicidade, de conhecer o "Negão Sorriso", que vive e desenvolve o trabalho em outro extremo deste nosso Brasil imenso. O nome dele de registro é Jones Dark de Jesus, e por isso nem teve que criar nome artístico. Apenas o Jesus ele guardou para os momentos de fé! Jovem de 29 anos, negro, até 2000 foi borracheiro, antes bóia fria, vendedor de picolé, criado sem pai a partir dos dois anos de idade, corajoso e trabalhador acima de tudo. O "Negrão Sorriso", está em Guanambi a passeio, visitando o avô materno que só há dois anos conheceu, com a ajuda de um programa de rádio local, para onde escreveu uma carta pedindo localizar em nosso Sertão o seu avô negro, posto que há 57 anos sua mãe não via o pai. Sua avó, separando do marido em 1947 dele separado passou a morar em São Paulo, depois em Goioerê no Paraná trabalhando na lavoura. Pois a cerca de quatro anos, fã de um locutor de rodeio do Paraná, Jones Dark ficou maravilhado quando na casa de pneus onde era borracheiro, chegou o ídolo. Após ter trocado o pneu foi cumprimentar o ilustre cliente, e este desfez do negro pobre, nem sequer segurando em sua mão. Deveria se vingar do "branco azedo" roubando ou matando? Como pensariam alguns! Não, mesmo frustrado se espelhou no locutor e começou uma luta para também ser um vencedor. Hoje o "Negão Sorriso" como patenteou, tem um programa show às 10h00 de cada domingo, na TV Bandeirantes, de Maringá, Paraná: "As aventuras de Jones Dark", direcionado ao publico infantil e adolescente. Lançou um almanaque destinado aos seus fãs clubes, onde em um jogo do labirinto revela seu pouco estudo: "Ajude o negão chegar a escola"... Continua simples, sorrindo principalmente, e sonhando: "Um dia apareço em rede nacional". Para aqueles que acham que foi apenas fator sorte, locupletem-se com a máxima: "Para toda regra há exceções". Nota do Editor: Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.
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